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Crônicas Noturnas é um blog que fala da vida de pessoas como você. São crônicas bem-humoradas sobre relacionamentos, encontros, desencontros. Histórias sobre amigos. Portanto, não faça cerimônia: puxe uma cadeira e divirta-se!
Rodrigo Lopes
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O Crônicas Noturnas está de volta.
E, como já estava com saudade disso aqui, decidi voltar com um texto saudosista.
Diferente do que geralmente publico aqui, mas que vale como homenagem a meus amigos João Luiz e Denys, grandes companheiros de várias noites de samba.
Samba-choro
Bom mesmo era no Garoto das Flores... A gente chegava ainda claro, antes mesmo do pessoal armar as mesas e as cadeiras na calçada. Inclusive não era raro esperar lugar pra sentar já com um copo numa mão e uma amostra de amendoim torrado na outra.
Para quem não conheceu o lugar, ficam minhas sinceras condolências e uma notícia ruim: o Garoto era o "seu bar". Todo mundo que ia lá pela primeira vez descobria isso rapidamente.
Ele funcionava no Mercado das Flores, no Centro do Rio. E toda sexta era palco de uma roda de samba sensacional comanda pelo Folha Seca, conjunto que tinha no surdo um negão chamado Branca de Neve. Aliás, o Branca era dono de uma das risadas mais engraçadas e altas que já ouvi na minha vida.
E a gente não perdia uma dessas risadas. Toda sexta, sem falta, estávamos lá: eu, Denys e João Luiz - amigos inseparáveis de rodas de samba. Além de outras presenças sempre importantes como Gui, Luiz, Dennis, Smurf, Guilherme, Silvio etc.
"A Dina subiu
o Morro do Pinto
pra me procurar.
Não encontrando
foi ao Morro da Favela
com a filha da Stela
pra me perturbar."
O samba começava quente. Muito Zé Kéti, Cartola, Noel, Candeia, muito samba de raiz que dava orgulho de viver no Rio. E tudo isso num lugar autêntico. Num bar simples, que não cobrava entrada, nem consumação mínima, que não tinha segurança troglodita de terno na porta, que não servia crepe ou qualquer coisa de salmão.
Não, senhores! O Garoto não era uma boite de samba, como essas que invadiram a Lapa: era um boteco. O copo era canelado de vidro grosso com direito a bolhas, coisa de liquidação. O cardápio era escrito à mão e não inventava: batata frita, lingüiça, aipim, carne seca. Em vez de chef de cuisine, a Dona Tereza - que preparava o Caldo de Mocotó sambando, aliás dizem que o segredo nunca esteve no refogado, mas no rebolado.
Na parede, em vez de esculturas ou coisinhas "descoladas", pilhas e mais pilhas de caixa de cerveja. Além de uma ou outra flâmula de time de futebol e um daqueles relógios-brinde da Souza Cruz. Tudo cuidadosamente desarrumado.
"Chego a mudar de calçada,
quando aparece uma flor.
E dou risada pro grande amor.
Mentira..."
A noite ia chegando e se perdendo. O bar estava sempre cheio, mas as mesas sempre vazias. Porque não tinha uma pessoa que conseguisse ficar sentada. Era impressionante. E graças a isso vivi várias histórias engraçadas.
Como no dia em que estávamos sambando dentro do bar e no auge da noite, na hora do Laiá (como diz o JL), avistamos três lindas meninas sambando em volta de uma mesa. Visão que logo foi completamente abafada por uma travessa de carne seca injustamente abandonada. Não pensamos duas vezes...
- Roberto, tá vendo aquelas três ali sambando?
- Sim! - responde o garçon com aquela cara de "anda, me dá logo essa merda de torpedo que eu entrego, seus merdas..."
- Pois é. Agora olha aquela travessa de carne seca. Elas não estão comendo mais. Pecado estragar.
O Roberto parecia já não acreditar no que ainda nem tinha ouvido.
- Então... Por que você não finge que vai limpar a mesa, retira ela e traz pra gente? Hein? Valeu?
Não lembro até hoje se a gente chegou a se sentir ridículo na hora. Só lembro que bastou uma piscada do Roberto e um "deixa comigo" pra começarmos a morrer de rir.
Enquanto isso, o Denys - que não liga tanto para carne seca - oferecia com muito charme flor às belas cabrochas. Sim, flor no singular. Era uma apenas uma flor (e retirada do enfeite da mesa) que ele dava e tomava disfarçadamente para presentear a próxima.
- Mas essa é a mesma flor que você deu para a minha amiga.
- É sim. Mas o que importa é o ato.
O Garoto das Flores era um momento feliz na vida de todo mundo que o conhecia. E só hoje, depois de fechado, consigo entender porque: ele tinha tudo que um bar de samba precisa para ser perfeito.
Tinha magia para divertir, alma para envolver, uma imagem de São Jorge para proteger e um aviso aos desprevenidos: "fiado só amanhã".
"Saudade amor, que saudade!
Que me vira pelo avesso,
que revira meu avesso.
Puseram a faca em meu peito,
mas quem disse que eu te esqueço,
mas quem disse que eu mereço."
escrito por RODRIGO LOPES @
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Quarta-feira, Março 17, 2004  |
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