Crônicas Noturnas

Crônicas Noturnas é um blog que fala da vida de pessoas como você. São crônicas bem-humoradas sobre relacionamentos, encontros, desencontros. Histórias sobre amigos. Portanto, não faça cerimônia: puxe uma cadeira e divirta-se!

Rodrigo Lopes





Guia Básico do Turista Abandonado - Fascículo 2


O primeiro dia passou, a noite chegou trazendo a lua e muita inspiração e você, turista abandonado, decidiu se divertir.

Péssima decisão. Porque nessa situação estamos ferindo a seguinte regra, que vale para qualquer situação: ninguém sai sozinho impunemente. Ainda mais num lugar que não conhece.

Isso é uma grande verdade. E se sua noite incluir um barzinho com música ao vivo, a chance de você estar no lugar errado aumenta cerca de 284%, segundo estudos recentes.

Este segundo fascículo do Guia Básico do Turista Abandonado traz um caso de estudo muito interessante, acontecido numa noite de sábado e vivido por este autor. Vale a pena conferir.


Carlos Gardel, voz e teclados

- Meu amigo, quem faz o show aqui hoje?
- Carlos Gardel, voz e teclados.

Aqui eu já vi que era fria. É a mesma coisa que ver um jogador chamado Zico: pode ter certeza que é uma merda...

- Carlos Gardel?
- Isso. Nome artístico.
- Imaginei. E esse cara canta o que?
- MPB
- Claro!

Não é? Claro que o tal Carlos Gardel cantava MPB. No momento imaginei a seguinte cena: um argentino saindo sozinho pelas ruas de Buenos Aires, parado em frente a um daqueles cafés e descobrindo que um tal de Jackson do Pandeiro vai fazer o show de tango da noite. Mas ainda assim decidi entrar.

O bar era bacana, um belo salão, os garçons super simpáticos... Bom, pelo menos de longe pareciam simpáticos, né... Sim, porque nenhum deles se aproximava da minha mesa.

Depois de meia hora de espera pensei: "eles devem estar achando que estou esperando alguém!". Afinal, ninguém vai pra barzinho de música ao vivo sozinho. Então decidi tomar uma postura ativa, levantei o braço e acenei com vontade.

Foi uma das cenas mais constrangedoras da minha vida. Todos do bar viraram pra mim. Menos, claro, os garçons. Aí, aquela clássica disfarçada de mão no ombro e cara de dor fingindo que aqueles movimentos eram fisioterapia. Ridículo.

Mas estava lá para ver o show, não é mesmo? Então tratei de analisar o cenário. No centro do salão estava uma espécie de mini-palco com quatro teclados. Dois à frente, dois à direita. E um microfone de pedestal.

Pra que tanto teclado, pensei eu? Mas, antes de arriscar uma resposta, surge o tal do Carlos Gardel. Com um daqueles microfones hands free, tipo de operador de tele-marketing. Ele entra, agradece os nenhum aplausos, ajeita o microfone de cabeça. Eu olho atento. Então ele se curva pra frente até o outro microfone e fala "som, som".

Porra! Pra que aquela merda na cabeça, então??? (esqueci de avisar que nesse momento eu já estava um pouco estressado).

Começa o show com aquele som de teclado safado e com nosso querido Carlos Gardel conquistando a tríplice coroa da música ao vivo logo na primeira frase cantada: entrou errado, desafinou e trocou a letra. Sensacional!

O bom é que o garçom ouviu minha gargalhada e veio me atender. Dica: se você está sozinho, pareça feliz. O raciocínio é simples: os garçons não vão conseguir entender o motivo de sua alegria e irão até sua mesa. Puro espírito de porco!

- Tudo bem?
- Tudo ótimo!
- Você não é daqui, né?
- Você também não! (lembre-se: a chance de um garçom ser de alguma cidade do interior do Ceará é de 74%. Sendo assim, se você está em qualquer outro lugar, arrisque)
- É verdade! O que deseja?

Pronto! Um aliado. E só demorei 42 minutos...

O show continua. Vem a segunda música e, claro: nova tríplice coroa. Comecei a achar que era de propósito, que era estilo. Será? Talvez não, porque de repente noto uma mudança na expressão de Carlos Gardel, ele parecia determinado a se acertar. Então num gesto de total doação ao público, ele boceja e coça a orelha direita.

Nisso, começa um solo. Espera. Como ele está solando numa escala aguda sem a mão direita??? Mais risada. Um olhar mais atento e percebo que suas mãos mal se mexem pelo teclado.

Recapitulando: Carlos Gardel, show de MPB, microfone desnecessário, tríplice coroa e quatro teclados absolutamente mudos.

O show em midi continua e o vasto repertório de MPB dele vai sendo apresentado. Algo que a gente poderia chamar de "O melhor das novelas - Nacional". Seis músicas inteirinhas são cantadas e "tocadas até que chega o merecido intervalo, com piadinha, é claro:

- Gente, agora vamos dar uma paradinha que tem uma loira me esperando. Não, eu não bebo. É loira mesmo. Hahaha. Volto em 10 minutos com muito mais para vocês.

Que imbecil!

Meia hora e uma picanha depois, o cara volta para o segundo set. Penso: esse cara não vai agüentar mais cantar...

"Gostaria de chamar aqui, minha grande amiga, essa menina que vai dar o que falar! Palmas para receber..." Era isso! Ele tinha um plano. A tal menina que vai dar o que falar entra e passa a cantar o show inteiro. E Carlos Gardel se limita a fazer segunda voz.

E quando eu achava que a pilantragem tinha chegado ao fim...

"Agora quero chamar... aliás, convocar, meu amigo..."

E é mais uma canja. E dois terços do show seguem dessa forma: a convidada cantando, o convidado fazendo segunda voz e o mito Carlos Gardel absolutamente calado e mexendo os braços em cima de um teclado desligado. Conclusão: não é à toa que o nome artístico do cara é argentino...


Bom, agora as dicas para você que é um turista abandonado tentando sair numa noite de sábado:

1 - Nunca peça informação de show ao recepcionista do seu hotel (melhor explicado no fascículo 1)

2 - Cuidado com o nome artístico do músico

3 - Nunca pergunte ao porteiro do bar se o show vale a pena. Ele vai falar que vale e vai pensar "que idiota!"

4 - Evite movimentos bruscos para chamar os garçons. É constrangedor.

5 - Entenda o que significa MPB na cidade onde você está.

6 - Tente apenas jantar, mas se não resistir e partir para um bar de música ao vivo, seja racional. Entenda que você não vai conseguir ver nenhum show interessante e trate de escolher seu destino pelo preço da bebida alcoólica que mais te agrada. Porque depois que você cair na real e perceber que a noite já era, pensará "bom, já que tô aqui nessa merda, vou beber..."

7 - Tenha sempre um walkman, com pilhas. Ajuda.

8 - Compre logo a passagem de volta. Desista!


escrito por RODRIGO LOPES @ 00:35 - PESSOAS COMENTARAM


Quarta-feira, Janeiro 21, 2004




Cenas de um casal - No. 01


- E então, o que a gente vai fazer hoje?
- Fiz uma reserva num restaurante maravilhoso!
- Hummmm... Onde?
- Ali em Ipanema! Um italiano sensacional...
- Italiano, amor???
- É! Sensacional!
- Ah! Não! Italiano, não!
- Por quê?
- Sempre massa, massa, massa. Já chega, né?!
- Mas eu fiz reserva... Você não falou pra eu escolher?
- Falei, mas é sempre massa, massa, massa. Quando você não quer comer massa é o que? Piiiiiiiiiiiiiiiiiiizza! Varia, pô! Comemorar o dia dos namorados num restaurante italiano???
- Mas esse é especial...
- Macarrão é macarrão! Só muda o preço!
- Quanta ignorância gastronômica, meu Deus! Tudo bem! Não vamos ao italiano. Mas você tocou num ponto importante: é dia dos namorados e vai ser impossível achar mesa. E aí?
- E aí que não vou comer macarrão, meu querido. Vamos para um japonês...
- Ah! Eu sabia! Você acha que japonês é chic... Isso já era!
- Vem cá, eu posso querer comer num japonês? Assim... pra variar, entende?
- Tá! Vamos para a fila de algum japonês...
- Já ficou emburrado, né?
- Claro que não, você acha que eu vou ligar pra besteira?
- Já ficou! Putz grila!
- Não é isso! Você não falou pra eu escolher? Escolhi o italiano. Pronto! Mesa reservada, tudo certo! Mas você quer comida japonesa... Tudo bem! Vamos lá! Você quem manda!
- Ótimo!
- Ótimo! E não vou mais abrir minha boca...

1h36 minutos depois...

- Olha, sem sacanagem, mas dessa vez você se superou!
- Ué... você não é aquele que não ia mais abrir a boca?
- Falando sério! Perdemos duas horas de uma noite que deveria ser especial em pé, numa fila. E por quê?
- Amor, acredite: nem todo mundo gosta de comer em restaurante italiano todo dia como você. Posso querer variar?
- Olha quem fala... A Srta. "Assim Não"...
- Tinha que ser grosso, né?
- É, minha filha, me aguarde! Deixa eu querer variar umas coisinhas aí e você vir com aquele "assim não"...
- Se você fosse mais sensível, não precisaria desse argumento... e também teria notado que eu não agüento mais comer a porcaria da massa que você adora!
- Tá bom! Tá bom! Chega de briga! Vamos comer. Já escolheu?
- Hummmm... tanta coisa gostosa!
- Anda, escolhe aí!
- Já sei! Já sei! Quero um Yakisoba...
- Eu te odeio!

PLACAR: ELA 1 x 0 ELE


escrito por RODRIGO LOPES @ 20:45 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Janeiro 18, 2004





A chave do quarto


Aproveitando o momento viagem. O hóspede (bermuda, camiseta e chinelo) chega na recepção com uma cara séria e fala:

- Meu amigo, estou com um problema.
- Pois não, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- Por que essas chaves dão defeito toda hora?
- É que, às vezes, o cartão desmagnetiza. Se ele ficar encostado ao celular, à televisão, a qualquer campo magnético, pode desmagnetizar...
- Campo magnético? Sei...

Pensa um pouquinho.

- E cerveja?
- Ãhn?!
- É, cerveja... Desmagnetiza?
- Cerveja, senhor?
- É que desde que eu cheguei, a única coisa que faço é beber cerveja... É Skol toda hora! E esse cartão só encostou em cerveja... Juro por Deus! Pode ser a latinha?
- Creio que não, senhor!
- Então troca essa merda que tá com defeito!
- Perfeito, senhor!

Juro que presenciei essa cena.


escrito por RODRIGO LOPES @ 12:25 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Janeiro 05, 2004





Guia Básico do Turista Abandonado - Fascículo 1


Você pegou um avião, foi para um outro estado e, de repente, por um desses desencontros da vida, você se vê sozinho numa cidade que não conhece. E agora?

Este Guia traz um resumo das experiências vividas por este autor. São diversas dicas para você se safar e tentar transformar essa situação em divertidas férias.



Regras básicas

Independente de quem você seja e da cidade onde esteja, há regras básicas - pra início de conversa - que todo turista abandonado deve saber.


Regra número 1: pense globalmente, aja localmente.
Isso funciona da seguinte maneira: enquanto você pensa que TODO MUNDO que cruza sua frente simplesmente sabe que você é turista e está sozinho, você sai andando normalmente como se conhecesse o lugar e como se nada estivesse acontecendo. Sim, você vai ficar vermelho algumas vezes, vai sentir a orelha quente. Mas isso é normal. Afinal está realmente todo mundo rindo por dentro de você. Mas, quer saber, quem nunca ficou sem graça na vida? (agora, se começar a coçar e empolar também, deve ser intoxicação alimentar... Mesmo! O que nos leva à regra 2).

Regra número 2: na Itália, coma como os italianos.
Você está na Itália? Não? Então vai pro McDonald's, meu amigo. Além disso, Domino's, Pizza Hut, Casa do Pão de Queijo e barraquinha de pipoca são outras boas opções. Nada de camarão, restaurantes com trocadilhos no nome ou restaurante japonês com nome criativo. Fuja!

Regra número 3: localize-se.
Aqui é o mais complicado e vou dividir em sub-regras

3.1: Nunca abra aqueles mapas com ilustração que tem na recepção do hotel. Aqueles que têm os pontos turísticos em destaque e se parecem com papel de bandeja do McDonald's. Porque além de ser ridículo você com esse tamanho olhando mapinha com desenho, eles sempre colocam todas as atrações perto do seu hotel. É sempre tudo perto. Tudo é ali. Tudo é fácil. "Ué, mas essa avenida expressa não estava aqui, cadê a Fonte Mágica do Siri? Só se for... porra, mas como atravesso pro outro lado?" . É... se vira, malandro! Quem mandou usar o mapinha.

3.2: Muito cuidado com as dicas dos recepcionistas. Aliás, muito cuidado com qualquer informação que venha de alguém que te deseja bom dia a cada meia hora e se veste igual a um miquinho de realejo. Lembre-se: alguma pessoa vai ter que pagar por isso... Afinal, você faria o mesmo!

3.3: Atente para um detalhe: em toda cidade do Brasil existe uma rua ou avenida Rio Branco, Washington Luis, Bandeirantes, Getúlio Vargas etc. Se perdeu? Use a manobra "Personagem Histórico". Escolha um, entre num táxi e seja firme: "Por favor, vamos para a Rio Branco!". Aí, se ele perguntar: "Que altura?", ferrou! Tentar responder vai ser pior, nesse caso o melhor é parecer maluco. Você levanta teu braço direito até o lado da tua cabeça com a palma virada pra baixo e fala: "Mais ou menos essa, ó!" (e dá uma balançadinha na mão pra frente e pra trás, como um dj). O bom de parecer maluco é que ele também vai evitar te enganar, afinal você pode ser meio agressivo... Chegando na rua de personagem histórico, vire à primeira esquerda e siga em frente. Sempre dá certo.

3.4: Falando em táxi. Sempre tenha mais dinheiro do que você acha que precisa. Porque turista tem cara de otário. Não adianta. E não adianta você se informar: pega aqui, vira ali e depois entra naquela... Não adianta. Eles têm mecanismos para te desconcentrar do tipo: "Virar aqui hoje???", "O doutor não é daqui, né?", "Não é melhor ir pela Machado? Essa hora...". Coisinhas bobas, mas que te fazem hesitar. Então relaxa e entregue pra Deus. "Olha, rapaz, você que manda! Não sou daqui...". Na melhor das hipóteses, saiba o tempo médio da corrida. Isso é mais eficiente que saber o caminho: "Eu vou aqui pra Duque Estrada, 10 minutinhos!" Agora ele já sabe que não vai poder fugir desse prazo e dez minutos de taxímetro nem é tanto assim...

Regra número 4: compre logo a passagem de volta.
A quem vamos enganar? Se você está sozinho num lugar que não conhece, volta logo, caramba!


No próximo fascículo, o Guia do Turista Abandonado traz dicas para situações práticas. E aí, o que você vai fazer? Que tal um showzinho? Quer parecer normal no hotel? Não perca!



escrito por RODRIGO LOPES @ 15:15 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Janeiro 04, 2004
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