Crônicas Noturnas

Crônicas Noturnas é um blog que fala da vida de pessoas como você. São crônicas bem-humoradas sobre relacionamentos, encontros, desencontros. Histórias sobre amigos. Portanto, não faça cerimônia: puxe uma cadeira e divirta-se!

Rodrigo Lopes




O Crônicas Noturnas está de volta.
E, como já estava com saudade disso aqui, decidi voltar com um texto saudosista.
Diferente do que geralmente publico aqui, mas que vale como homenagem a meus amigos João Luiz e Denys, grandes companheiros de várias noites de samba.




Samba-choro


Bom mesmo era no Garoto das Flores... A gente chegava ainda claro, antes mesmo do pessoal armar as mesas e as cadeiras na calçada. Inclusive não era raro esperar lugar pra sentar já com um copo numa mão e uma amostra de amendoim torrado na outra.

Para quem não conheceu o lugar, ficam minhas sinceras condolências e uma notícia ruim: o Garoto era o "seu bar". Todo mundo que ia lá pela primeira vez descobria isso rapidamente.

Ele funcionava no Mercado das Flores, no Centro do Rio. E toda sexta era palco de uma roda de samba sensacional comanda pelo Folha Seca, conjunto que tinha no surdo um negão chamado Branca de Neve. Aliás, o Branca era dono de uma das risadas mais engraçadas e altas que já ouvi na minha vida.

E a gente não perdia uma dessas risadas. Toda sexta, sem falta, estávamos lá: eu, Denys e João Luiz - amigos inseparáveis de rodas de samba. Além de outras presenças sempre importantes como Gui, Luiz, Dennis, Smurf, Guilherme, Silvio etc.


"A Dina subiu
o Morro do Pinto
pra me procurar.
Não encontrando
foi ao Morro da Favela
com a filha da Stela
pra me perturbar."



O samba começava quente. Muito Zé Kéti, Cartola, Noel, Candeia, muito samba de raiz que dava orgulho de viver no Rio. E tudo isso num lugar autêntico. Num bar simples, que não cobrava entrada, nem consumação mínima, que não tinha segurança troglodita de terno na porta, que não servia crepe ou qualquer coisa de salmão.

Não, senhores! O Garoto não era uma boite de samba, como essas que invadiram a Lapa: era um boteco. O copo era canelado de vidro grosso com direito a bolhas, coisa de liquidação. O cardápio era escrito à mão e não inventava: batata frita, lingüiça, aipim, carne seca. Em vez de chef de cuisine, a Dona Tereza - que preparava o Caldo de Mocotó sambando, aliás dizem que o segredo nunca esteve no refogado, mas no rebolado.

Na parede, em vez de esculturas ou coisinhas "descoladas", pilhas e mais pilhas de caixa de cerveja. Além de uma ou outra flâmula de time de futebol e um daqueles relógios-brinde da Souza Cruz. Tudo cuidadosamente desarrumado.


"Chego a mudar de calçada,
quando aparece uma flor.
E dou risada pro grande amor.
Mentira..."



A noite ia chegando e se perdendo. O bar estava sempre cheio, mas as mesas sempre vazias. Porque não tinha uma pessoa que conseguisse ficar sentada. Era impressionante. E graças a isso vivi várias histórias engraçadas.

Como no dia em que estávamos sambando dentro do bar e no auge da noite, na hora do Laiá (como diz o JL), avistamos três lindas meninas sambando em volta de uma mesa. Visão que logo foi completamente abafada por uma travessa de carne seca injustamente abandonada. Não pensamos duas vezes...

- Roberto, tá vendo aquelas três ali sambando?
- Sim! - responde o garçon com aquela cara de "anda, me dá logo essa merda de torpedo que eu entrego, seus merdas..."
- Pois é. Agora olha aquela travessa de carne seca. Elas não estão comendo mais. Pecado estragar.

O Roberto parecia já não acreditar no que ainda nem tinha ouvido.

- Então... Por que você não finge que vai limpar a mesa, retira ela e traz pra gente? Hein? Valeu?

Não lembro até hoje se a gente chegou a se sentir ridículo na hora. Só lembro que bastou uma piscada do Roberto e um "deixa comigo" pra começarmos a morrer de rir.

Enquanto isso, o Denys - que não liga tanto para carne seca - oferecia com muito charme flor às belas cabrochas. Sim, flor no singular. Era uma apenas uma flor (e retirada do enfeite da mesa) que ele dava e tomava disfarçadamente para presentear a próxima.

- Mas essa é a mesma flor que você deu para a minha amiga.
- É sim. Mas o que importa é o ato.

O Garoto das Flores era um momento feliz na vida de todo mundo que o conhecia. E só hoje, depois de fechado, consigo entender porque: ele tinha tudo que um bar de samba precisa para ser perfeito.

Tinha magia para divertir, alma para envolver, uma imagem de São Jorge para proteger e um aviso aos desprevenidos: "fiado só amanhã".


"Saudade amor, que saudade!
Que me vira pelo avesso,
que revira meu avesso.
Puseram a faca em meu peito,
mas quem disse que eu te esqueço,
mas quem disse que eu mereço."




escrito por RODRIGO LOPES @ 15:52 - PESSOAS COMENTARAM


Quarta-feira, Março 17, 2004





Nota da redação:

O Crônicas Noturnas decidiu dar uma volta por aí.
Tratou de conhecer gente nova, viver novas histórias e se preparar para 2004.
Dizem até que está apaixonado...

Mas ele volta logo! Semana que vem está aqui!


escrito por RODRIGO LOPES @ 13:02 - PESSOAS COMENTARAM


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004




Guia Básico do Turista Abandonado - Fascículo 2


O primeiro dia passou, a noite chegou trazendo a lua e muita inspiração e você, turista abandonado, decidiu se divertir.

Péssima decisão. Porque nessa situação estamos ferindo a seguinte regra, que vale para qualquer situação: ninguém sai sozinho impunemente. Ainda mais num lugar que não conhece.

Isso é uma grande verdade. E se sua noite incluir um barzinho com música ao vivo, a chance de você estar no lugar errado aumenta cerca de 284%, segundo estudos recentes.

Este segundo fascículo do Guia Básico do Turista Abandonado traz um caso de estudo muito interessante, acontecido numa noite de sábado e vivido por este autor. Vale a pena conferir.


Carlos Gardel, voz e teclados

- Meu amigo, quem faz o show aqui hoje?
- Carlos Gardel, voz e teclados.

Aqui eu já vi que era fria. É a mesma coisa que ver um jogador chamado Zico: pode ter certeza que é uma merda...

- Carlos Gardel?
- Isso. Nome artístico.
- Imaginei. E esse cara canta o que?
- MPB
- Claro!

Não é? Claro que o tal Carlos Gardel cantava MPB. No momento imaginei a seguinte cena: um argentino saindo sozinho pelas ruas de Buenos Aires, parado em frente a um daqueles cafés e descobrindo que um tal de Jackson do Pandeiro vai fazer o show de tango da noite. Mas ainda assim decidi entrar.

O bar era bacana, um belo salão, os garçons super simpáticos... Bom, pelo menos de longe pareciam simpáticos, né... Sim, porque nenhum deles se aproximava da minha mesa.

Depois de meia hora de espera pensei: "eles devem estar achando que estou esperando alguém!". Afinal, ninguém vai pra barzinho de música ao vivo sozinho. Então decidi tomar uma postura ativa, levantei o braço e acenei com vontade.

Foi uma das cenas mais constrangedoras da minha vida. Todos do bar viraram pra mim. Menos, claro, os garçons. Aí, aquela clássica disfarçada de mão no ombro e cara de dor fingindo que aqueles movimentos eram fisioterapia. Ridículo.

Mas estava lá para ver o show, não é mesmo? Então tratei de analisar o cenário. No centro do salão estava uma espécie de mini-palco com quatro teclados. Dois à frente, dois à direita. E um microfone de pedestal.

Pra que tanto teclado, pensei eu? Mas, antes de arriscar uma resposta, surge o tal do Carlos Gardel. Com um daqueles microfones hands free, tipo de operador de tele-marketing. Ele entra, agradece os nenhum aplausos, ajeita o microfone de cabeça. Eu olho atento. Então ele se curva pra frente até o outro microfone e fala "som, som".

Porra! Pra que aquela merda na cabeça, então??? (esqueci de avisar que nesse momento eu já estava um pouco estressado).

Começa o show com aquele som de teclado safado e com nosso querido Carlos Gardel conquistando a tríplice coroa da música ao vivo logo na primeira frase cantada: entrou errado, desafinou e trocou a letra. Sensacional!

O bom é que o garçom ouviu minha gargalhada e veio me atender. Dica: se você está sozinho, pareça feliz. O raciocínio é simples: os garçons não vão conseguir entender o motivo de sua alegria e irão até sua mesa. Puro espírito de porco!

- Tudo bem?
- Tudo ótimo!
- Você não é daqui, né?
- Você também não! (lembre-se: a chance de um garçom ser de alguma cidade do interior do Ceará é de 74%. Sendo assim, se você está em qualquer outro lugar, arrisque)
- É verdade! O que deseja?

Pronto! Um aliado. E só demorei 42 minutos...

O show continua. Vem a segunda música e, claro: nova tríplice coroa. Comecei a achar que era de propósito, que era estilo. Será? Talvez não, porque de repente noto uma mudança na expressão de Carlos Gardel, ele parecia determinado a se acertar. Então num gesto de total doação ao público, ele boceja e coça a orelha direita.

Nisso, começa um solo. Espera. Como ele está solando numa escala aguda sem a mão direita??? Mais risada. Um olhar mais atento e percebo que suas mãos mal se mexem pelo teclado.

Recapitulando: Carlos Gardel, show de MPB, microfone desnecessário, tríplice coroa e quatro teclados absolutamente mudos.

O show em midi continua e o vasto repertório de MPB dele vai sendo apresentado. Algo que a gente poderia chamar de "O melhor das novelas - Nacional". Seis músicas inteirinhas são cantadas e "tocadas até que chega o merecido intervalo, com piadinha, é claro:

- Gente, agora vamos dar uma paradinha que tem uma loira me esperando. Não, eu não bebo. É loira mesmo. Hahaha. Volto em 10 minutos com muito mais para vocês.

Que imbecil!

Meia hora e uma picanha depois, o cara volta para o segundo set. Penso: esse cara não vai agüentar mais cantar...

"Gostaria de chamar aqui, minha grande amiga, essa menina que vai dar o que falar! Palmas para receber..." Era isso! Ele tinha um plano. A tal menina que vai dar o que falar entra e passa a cantar o show inteiro. E Carlos Gardel se limita a fazer segunda voz.

E quando eu achava que a pilantragem tinha chegado ao fim...

"Agora quero chamar... aliás, convocar, meu amigo..."

E é mais uma canja. E dois terços do show seguem dessa forma: a convidada cantando, o convidado fazendo segunda voz e o mito Carlos Gardel absolutamente calado e mexendo os braços em cima de um teclado desligado. Conclusão: não é à toa que o nome artístico do cara é argentino...


Bom, agora as dicas para você que é um turista abandonado tentando sair numa noite de sábado:

1 - Nunca peça informação de show ao recepcionista do seu hotel (melhor explicado no fascículo 1)

2 - Cuidado com o nome artístico do músico

3 - Nunca pergunte ao porteiro do bar se o show vale a pena. Ele vai falar que vale e vai pensar "que idiota!"

4 - Evite movimentos bruscos para chamar os garçons. É constrangedor.

5 - Entenda o que significa MPB na cidade onde você está.

6 - Tente apenas jantar, mas se não resistir e partir para um bar de música ao vivo, seja racional. Entenda que você não vai conseguir ver nenhum show interessante e trate de escolher seu destino pelo preço da bebida alcoólica que mais te agrada. Porque depois que você cair na real e perceber que a noite já era, pensará "bom, já que tô aqui nessa merda, vou beber..."

7 - Tenha sempre um walkman, com pilhas. Ajuda.

8 - Compre logo a passagem de volta. Desista!


escrito por RODRIGO LOPES @ 23:35 - PESSOAS COMENTARAM


Terça-feira, Janeiro 20, 2004




Cenas de um casal - No. 01


- E então, o que a gente vai fazer hoje?
- Fiz uma reserva num restaurante maravilhoso!
- Hummmm... Onde?
- Ali em Ipanema! Um italiano sensacional...
- Italiano, amor???
- É! Sensacional!
- Ah! Não! Italiano, não!
- Por quê?
- Sempre massa, massa, massa. Já chega, né?!
- Mas eu fiz reserva... Você não falou pra eu escolher?
- Falei, mas é sempre massa, massa, massa. Quando você não quer comer massa é o que? Piiiiiiiiiiiiiiiiiiizza! Varia, pô! Comemorar o dia dos namorados num restaurante italiano???
- Mas esse é especial...
- Macarrão é macarrão! Só muda o preço!
- Quanta ignorância gastronômica, meu Deus! Tudo bem! Não vamos ao italiano. Mas você tocou num ponto importante: é dia dos namorados e vai ser impossível achar mesa. E aí?
- E aí que não vou comer macarrão, meu querido. Vamos para um japonês...
- Ah! Eu sabia! Você acha que japonês é chic... Isso já era!
- Vem cá, eu posso querer comer num japonês? Assim... pra variar, entende?
- Tá! Vamos para a fila de algum japonês...
- Já ficou emburrado, né?
- Claro que não, você acha que eu vou ligar pra besteira?
- Já ficou! Putz grila!
- Não é isso! Você não falou pra eu escolher? Escolhi o italiano. Pronto! Mesa reservada, tudo certo! Mas você quer comida japonesa... Tudo bem! Vamos lá! Você quem manda!
- Ótimo!
- Ótimo! E não vou mais abrir minha boca...

1h36 minutos depois...

- Olha, sem sacanagem, mas dessa vez você se superou!
- Ué... você não é aquele que não ia mais abrir a boca?
- Falando sério! Perdemos duas horas de uma noite que deveria ser especial em pé, numa fila. E por quê?
- Amor, acredite: nem todo mundo gosta de comer em restaurante italiano todo dia como você. Posso querer variar?
- Olha quem fala... A Srta. "Assim Não"...
- Tinha que ser grosso, né?
- É, minha filha, me aguarde! Deixa eu querer variar umas coisinhas aí e você vir com aquele "assim não"...
- Se você fosse mais sensível, não precisaria desse argumento... e também teria notado que eu não agüento mais comer a porcaria da massa que você adora!
- Tá bom! Tá bom! Chega de briga! Vamos comer. Já escolheu?
- Hummmm... tanta coisa gostosa!
- Anda, escolhe aí!
- Já sei! Já sei! Quero um Yakisoba...
- Eu te odeio!

PLACAR: ELA 1 x 0 ELE


escrito por RODRIGO LOPES @ 19:45 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Janeiro 18, 2004





A chave do quarto


Aproveitando o momento viagem. O hóspede (bermuda, camiseta e chinelo) chega na recepção com uma cara séria e fala:

- Meu amigo, estou com um problema.
- Pois não, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- Por que essas chaves dão defeito toda hora?
- É que, às vezes, o cartão desmagnetiza. Se ele ficar encostado ao celular, à televisão, a qualquer campo magnético, pode desmagnetizar...
- Campo magnético? Sei...

Pensa um pouquinho.

- E cerveja?
- Ãhn?!
- É, cerveja... Desmagnetiza?
- Cerveja, senhor?
- É que desde que eu cheguei, a única coisa que faço é beber cerveja... É Skol toda hora! E esse cartão só encostou em cerveja... Juro por Deus! Pode ser a latinha?
- Creio que não, senhor!
- Então troca essa merda que tá com defeito!
- Perfeito, senhor!

Juro que presenciei essa cena.


escrito por RODRIGO LOPES @ 11:25 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Janeiro 05, 2004





Guia Básico do Turista Abandonado - Fascículo 1


Você pegou um avião, foi para um outro estado e, de repente, por um desses desencontros da vida, você se vê sozinho numa cidade que não conhece. E agora?

Este Guia traz um resumo das experiências vividas por este autor. São diversas dicas para você se safar e tentar transformar essa situação em divertidas férias.



Regras básicas

Independente de quem você seja e da cidade onde esteja, há regras básicas - pra início de conversa - que todo turista abandonado deve saber.


Regra número 1: pense globalmente, aja localmente.
Isso funciona da seguinte maneira: enquanto você pensa que TODO MUNDO que cruza sua frente simplesmente sabe que você é turista e está sozinho, você sai andando normalmente como se conhecesse o lugar e como se nada estivesse acontecendo. Sim, você vai ficar vermelho algumas vezes, vai sentir a orelha quente. Mas isso é normal. Afinal está realmente todo mundo rindo por dentro de você. Mas, quer saber, quem nunca ficou sem graça na vida? (agora, se começar a coçar e empolar também, deve ser intoxicação alimentar... Mesmo! O que nos leva à regra 2).

Regra número 2: na Itália, coma como os italianos.
Você está na Itália? Não? Então vai pro McDonald's, meu amigo. Além disso, Domino's, Pizza Hut, Casa do Pão de Queijo e barraquinha de pipoca são outras boas opções. Nada de camarão, restaurantes com trocadilhos no nome ou restaurante japonês com nome criativo. Fuja!

Regra número 3: localize-se.
Aqui é o mais complicado e vou dividir em sub-regras

3.1: Nunca abra aqueles mapas com ilustração que tem na recepção do hotel. Aqueles que têm os pontos turísticos em destaque e se parecem com papel de bandeja do McDonald's. Porque além de ser ridículo você com esse tamanho olhando mapinha com desenho, eles sempre colocam todas as atrações perto do seu hotel. É sempre tudo perto. Tudo é ali. Tudo é fácil. "Ué, mas essa avenida expressa não estava aqui, cadê a Fonte Mágica do Siri? Só se for... porra, mas como atravesso pro outro lado?" . É... se vira, malandro! Quem mandou usar o mapinha.

3.2: Muito cuidado com as dicas dos recepcionistas. Aliás, muito cuidado com qualquer informação que venha de alguém que te deseja bom dia a cada meia hora e se veste igual a um miquinho de realejo. Lembre-se: alguma pessoa vai ter que pagar por isso... Afinal, você faria o mesmo!

3.3: Atente para um detalhe: em toda cidade do Brasil existe uma rua ou avenida Rio Branco, Washington Luis, Bandeirantes, Getúlio Vargas etc. Se perdeu? Use a manobra "Personagem Histórico". Escolha um, entre num táxi e seja firme: "Por favor, vamos para a Rio Branco!". Aí, se ele perguntar: "Que altura?", ferrou! Tentar responder vai ser pior, nesse caso o melhor é parecer maluco. Você levanta teu braço direito até o lado da tua cabeça com a palma virada pra baixo e fala: "Mais ou menos essa, ó!" (e dá uma balançadinha na mão pra frente e pra trás, como um dj). O bom de parecer maluco é que ele também vai evitar te enganar, afinal você pode ser meio agressivo... Chegando na rua de personagem histórico, vire à primeira esquerda e siga em frente. Sempre dá certo.

3.4: Falando em táxi. Sempre tenha mais dinheiro do que você acha que precisa. Porque turista tem cara de otário. Não adianta. E não adianta você se informar: pega aqui, vira ali e depois entra naquela... Não adianta. Eles têm mecanismos para te desconcentrar do tipo: "Virar aqui hoje???", "O doutor não é daqui, né?", "Não é melhor ir pela Machado? Essa hora...". Coisinhas bobas, mas que te fazem hesitar. Então relaxa e entregue pra Deus. "Olha, rapaz, você que manda! Não sou daqui...". Na melhor das hipóteses, saiba o tempo médio da corrida. Isso é mais eficiente que saber o caminho: "Eu vou aqui pra Duque Estrada, 10 minutinhos!" Agora ele já sabe que não vai poder fugir desse prazo e dez minutos de taxímetro nem é tanto assim...

Regra número 4: compre logo a passagem de volta.
A quem vamos enganar? Se você está sozinho num lugar que não conhece, volta logo, caramba!


No próximo fascículo, o Guia do Turista Abandonado traz dicas para situações práticas. E aí, o que você vai fazer? Que tal um showzinho? Quer parecer normal no hotel? Não perca!



escrito por RODRIGO LOPES @ 14:15 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Janeiro 04, 2004




Enquanto isso, no Bar do Valdemar...


- Porra, na boa, cadê o Paçoca?
- Será que o filho da mãe se deu bem no caminho do banheiro?
- Só se ele tá pegando um tabuleiro de torresmo, né?! Desde quando dá mulher aqui no Val?
- Ah! Tem aquelas duas ali. Acho que tinham mais na mesa...
- Será? Mas ele não ia deixar a gente esperando.
- Meu irmão, às vezes a mulher aparece de um jeito que o cara acaba perdendo a cabeça...
- Isso é a cara do Paçoca!
- Shhhhh! Aí, será que ele foi abdusido?
- Você quer dizer seqüestro relâmpago?!
- Não, pô! Abdusido, mesmo. Vi na tv que...
- Quer um guaraná? Toma um guaraná, Cesinha. Você já passou do ponto!
- É sério, rapaz! Na Escócia, um agricultor chamado John Mcalguma coisa
- McFish?
- Isso, John McFish. Você viu também? Pois é, esse cara...
- McFish é sanduíche, porra. Vocês estão malucos?
- Ai, cacete! Deixa eu falar. Esse cara estava em casa e foi até o bar. Depois nunca mais foi visto.
- E?
- Os amigos dele, que também estavam no bar, disseram que viram umas luzes piscando e depois o cara sumiu. Foi abdusido.
- Cesinha, Escócia. Whisky. Cara, nego liga carro no bafo, lá. O tal do John mandou esse caô para se mandar de casa. A mulher deve ser uma jararaca.
- Sei não. Teve também o caso daquele garoto, o Stewart James.
- Esse não foi aquele que se recusou a mandar um recado para toda a lista do icq e perdeu todos os arquivos do HD?
- Porra, cadê a porra do Paçoca?
- Marcos, queria aproveitar a ocasião para dizer que tenho reparado que você tem falado muito palavrão. Especialmente "porra"...
- Foda-se!
- Peraí, porra! Vamos parar com essa porra de discussão!
- Você também? Bando de desbocados, vão todos tomar nos seus cuzes.
- O plural de cu é cuzes?
- Claro que não, mané! Plural de cu é bundas. Todo mundo sabe dessa porra.
- Caralho! Vocês estão bêbados.
- Garçom, traz aí pra gente 5 chopps e o Paçoca!
- Haha. Essa foi boa. Cadê aquele filho da mãe?
- Será que ele está numa ilha deserta agora?
- Hummmm, já pensou? Uma ilha deserta cheia de mulher gostosa??
- Então não é deserta, pô.
- E daí? E daí?
- Espera! Que porra de paçoca é essa aqui na mesa?
- Paçoca? É você? Fala comigo!
- Será que é ele? Paçoca??? Fala alguma coisa!
- Gente, com calma pra ele não esfarelar...
- Foram os extraterrestres que fizeram isso contigo, Paçoca?
- Garçom, você viu quem foi que trouxe o Paçoca de volta?
- Fui eu que trouxe essa paçoca.
- Você que estava com ele, seu alienígena?
- Larga o garçom, Cesinha! O cara só trouxe ele de volta.
- Quem fez isso com nosso amigo, fala!
- Que amigo o que, rapaz?! Vocês que pediram 5 chopps e uma paçoca. Olha aqui na comanda...
- Puta-que-pariu! Vamos parar de beber que tá foda!
- Merda, cadê o Paçoca?
- É! Cadê ele, porra?



escrito por RODRIGO LOPES @ 02:38 - PESSOAS COMENTARAM


Quinta-feira, Dezembro 25, 2003





Lado de fora do Jardim do Éden, dia dezesseis...


- Eva, você tem certeza?
- Tenho... é... tenho sim, vamos dobrar à esquerda...
- Eva... olha lá?!
- Tô te falando! Tem um buraco no muro por aqui, a gente vai poder voltar...
- Como é que você sabe disso, mesmo?
- Já te falei! Um dia, catando umas amoras pra fazer uma torta pra você, acabei vendo o buraco.
- Sei! Essa história ta muito mal contada...
- Vamos logo! Vamos voltar pro paraíso!

Adão!

- Putz grila! Ele viu a gente! Finge que não ouviu...

Adão, não adianta fingir que não me ouviu...

- Deus?! Perdão, Deus! Estamos desesperados... Não nos castigue!

Que Deus, o quê, Adão? Bebeu?

- Quem é?

Rodrigo, o autor.

- Ah! Estava mesmo precisando falar contigo...

Diga!

- Tô com um plano pra voltar para o paraíso, mas preciso de você.

Mas história é história, Adão! Não posso fazer nada!

- Ei! Sou o berço da civilização, meu caro! Cadê a consideração???

Pra mim, você é apenas uma personagem. Que, aliás, eu controlo!

- Eu sou bicha!

Viu?

- Isso é injusto! Eu sou muito bicha e tenho cara de melão!

É divertido...

- Você pode parar de colocar palavras na minha boca?

Isso é impossível!

- É verdade. Mas você entendeu o que quero.

Ok. Prossiga. Mas anda logo, porque eu tenho que escrever mais crônicas que o pessoal tá reclamando da falta de atualização do site!

- É? Porque?

Ah, rapaz! Sabe como é fim de ano, né?! Trabalho, festas, não tenho tido tempo pra escrever...

- Você tá ficando metido!

É ruim, hein?!

- Ah lá! Já tá valorizando! Que vergonha...

Você acha, Adão?

- Eu acho... que sou bicha! E que tenho cara de melão e que sou um bobão. Pô, Rodrigo, não sacaneia!

Diga o que você quer, então.

- Põe a gente de volta no paraíso...

Impossível, já falei. Deus que manda.

- Fala com Deus por mim.

Não dá. Desista!

- Por favor, Rodrigo!

Desculpa...

- Tudo bem. Então, pelo menos... espera. Só um minutinho, vou falar com a Eva. Eva?
- Que foi, Adão?
- Eva, você pode nos dar licença um minuto? Vai ali praquela árvore rapidinho.
- Tá bom, bicha! Desculpa, não sei o que deu em mim para falar isso...
- Eu sei, Eva! Eu sei! Pô, Rodrigo, pára com isso...

Fala!

- Seguinte: já que eu não vou conseguir voltar pra minha casa nessa crônica, queria te pedir pelo menos para me vingar daquela tonta da Eva...

Olha que tudo que vai, volta!

- Só uma sacaneada. Coisa simples...

Vou pensar no teu caso. Volta para a crônica. Ah! E, quando você ouvir um estalo, vai esquecer de tudo...

- Vou mesmo?

Na verdade, eu só vou dar um ctrl C, ctrl V. Mas quis dar uma dramatizada...

- Ah, tá! Falou! Abraço, escritor espetacular com o qual estou tendo a honra enorme de trabalhar... pô, Rodrigo, pára de me fazer falar coisas!

Haha. Eu sou show! Bom, vamos lá!

Clap!

- Eva, você tem certeza?
- Tenho... é... tenho sim, vamos dobrar à esquerda...
- Eva... olha lá?!
- Tô te falando! Tem um buraco no muro por aqui, a gente vai poder voltar...
- Como é que você sabe disso, mesmo?
- Já te falei! Um dia, catando umas amoras pra fazer uma torta pra você, acabei vendo o buraco.
- Sei! Essa história ta muito mal contada...
- Vamos logo! Vamos voltar pro paraíso! Olha, acho que é ali no chão...
- Onde? Não estou vendo... espera, espera!
- Tá vendo o buraco?
- Hehe! Quase...
- Quase?
- É. Se você se curvar mais pra frente...
- Assim?
- Aí! Tô vendo o buraco.
- Então entra, pô!
- Eva! Você está animadinha, hein?!
- Entra no paraíso, Adão!
- Hummmmm
- Que foi? Que cara é essa de safado?
- Hehe! Nada, não! Vira! Deixa eu entrar no buraco, deixa...
- Ai, Adão! Como você é bobo!


escrito por RODRIGO LOPES @ 20:55 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Dezembro 21, 2003




Coisas que só acontecem comigo...



Episódio de hoje: "Rodrigo, é você?!"

Rodriiiiiiiiiiiiiiigo, telefooooooooooone

- Alô!
- Oi, Rô! É Rosângela, tudo bem?
- Tudo bem. Rosângela?
- Olha, estou ligando para te chamar pro meu aniversário.
- Rosângela? Eu não conheço nenhuma Rosângela...
- Rodrigo, deixa de ser bobo!
- Sério...
- Quer parar?! Odeio esse tipo de brincadeira!
- Desculpa, mas não te conheço. Pelo menos não me lembro.
- Rosângela da faculdade, Rodrigo. Da tua turma.
- Rosângela da faculdade? Não, não conheço
- Aí! Que ridículo! Quer parar de bobeira?
- Mas é sério...
- Não quer ir no aniversário, tudo bem! Mas não inventa uma besteira dessas...
- Olha, desculpa. Mas não te conheço!
- Não vai parar?
- Não tenho que parar nada...
- Ah! É? Então tá! Tchau!
- Tchau!

1 minuto depois.

- Rodrigo, é Mariana!
- Mariana?
- É, a Rô tá puta contigo!
- Rô?
- Vai brincar assim comigo também, Rodrigo? A Rosângela, da faculdade!
- Mas eu não conheço nenhuma Rosângela. Será possível?
- Que bobeira, Rodrigo! Porque você tá fazendo isso? Vocês brigaram?
- Mas eu nem conheço essa mulher...
- Foi aquela festa da Camila, não foi?! Vocês estão estranhos desde lá. Ela estava toda nervosa pra te ligar...
- Mariana, eu não te conheço, não conheço a Rosângela e a última Camila que conheci estudou comigo no colégio...
- Deixa de pilha, Rodrigo. A Rosângela cai porque fica logo puta com a pilha. Mas eu não. Porque você tá fazendo isso.
- [Pausa] Espera. Isso é ridículo! Fala sério! Que número você tem aí?
- O seu, ora! 2222-2222.
- Ué... é esse mesmo.
- Claro que é Rodrigo. Não estou falando contigo?!
- Mas eu não sou o Rodrigo que vocês querem...
- Olha, conselho de amiga, liga pra Rosângela e pede desculpa pela brincadeira. Ela te adora, você sabe disso...
- Eu não sei, droga. Eu não sou esse cara!
- Mas até a voz é igual.
- Não, aí você tá de sacanagem! É trote, não é?! Quem mandou vocês ligarem?
- Aí, até o jeito!
- Não sou eu. É engano.
- Deixa de ser bobo!
- Que curso vocês fazem?
- Comunicação.
- Eu também.
- Dããããã...
- Mas não conheço nenhuma Rosângela na PUC...
- PUC?
- Espera. Onde vocês estudam?
- Na UERJ, ora.
- Aí! Eu estudo na PUC.
- Jura?
- Juro, tô falando, não sou eu. Se quiser, anota aí minha matrícula pra conferir?
- Pensando bem, a voz não é a mesma.
- Tô falando!
- Mas é muito parecida...
- Acredita em mim agora?
- Mas e o telefone?
- Alguém anotou errado, ou esse cara deu um tel de sacanagem e coincidiu de ser o meu.
- Nossa, que coincidência! Nome, voz, curso, telefone, sinistro!
- Pô, nem fala.
- A Rô não vai acreditar, vai ficar super sem graça.
- Relaxa, entendo porque ela ficou puta. Agora...
- O quê?
- Onde vai ser essa festa, mesmo?

Coisas que só acontecem comigo...

escrito por RODRIGO LOPES @ 13:01 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Dezembro 01, 2003





Em nome do Povo


- Jean-Jacques, é você?
- Eu?
- Jean-Jacques, é Anne-Marie!
- Beleza?
- O que foi? Parece estranho!
- Estranhos são esses nomes...
- Imagina! São super comuns aqui.
- Aqui onde?
- Jean-Jacques, estamos na Côrte Francesa, século XVII, você queria o que?
- A Revolução Francesa já aconteceu? Desculpa, é que nunca gostei de História!
- História?
- Ah! Você não sabe...
- O que?
- É que eu estou sendo aproveitado de outra crônica. Na verdade meu nome é Paçoca. Apelido, né...
- Que interessante... você não foi criado para essa história?
- Não. Nem sei o que tá acontecendo. Estava num boteco com uns amigos, de repente o Rodrigo desistiu de escrever aquela crônica e cá estou.
- Boteco? O que é isso?
- É como se fosse um bar. Só que as opções de bebida ganham das de comida. E é um pouquinho mais, digamos, despreocupado com a higiene, sabe?! Geralmente mulher não gosta...
- Parece com as nossas tabernas.
- Mas então, quem sou eu?
- Você é Jean-Jacques Champignion.
- Hummmm... e?
- O herdeiro de uma das maiores fortunas da França. Sua família é uma das mais importantes da Côrte.
- Estou começando a gostar da brincadeira.
- Mas aí você decidiu abrir mão de tudo e lutar pelos direitos do povo...
- Eu sou uma besta! Sempre fui!
- Virou um líder revolucionário. Peça-chave do movimento de libertação.
- Mas até que isso é bacana! Eu sou um aventureiro, um homem destemido! E rico. Quando cansar de brincar eu volto pra casa e vou viver de rendas! Que espetáculo! A rapaziada lá do Bar do Valdemar vai ficar de boca aberta quando souber...
- Você é um homem interessante, sim. As mulheres não resistem ao seu charme de "homem perseguido". Todas querem preteger Jean-Jacques Champignion.
- Sensacional! E você é uma destas mulheres, suponho eu.
- Não, na verdade sou uma ama da Côrte. Só vim aqui perguntar qual era o seu último desejo.
- Último desejo?
- Espera, eu não te falei da guilhotina?
- Droga! Odeio História!



escrito por RODRIGO LOPES @ 12:34 - PESSOAS COMENTARAM







Coisas que só acontecem comigo...


Episódio de hoje: "Acontece"

Lembro como se fosse hoje (tradução: nunca vou esquecer esta merda!): eu, João Luiz, o pilantra do Sílvio e a bela Bibi estávamos... Droga! Tinha jurado que não usaria os nomes das pessoas em histórias reais.

Bom, recomeçando, estávamos eu, Huguinho, o pilantra do Zezinho e a bela Luizinha no Dama da Noite, na Lapa. Quem gosta de samba e mora no Rio deve conhecer o lugar.

Pois bem, noite correndo solta, o samba já avançava para o segundo set, muito Zé Kéti e Cartola, lugar cheio de gente bonita, enfim, uma noite "da melhor qualidade". Até que eu resolvo ir ao banheiro.

Entro, começo o serviço. De repente, vejo um registro vermelho na parede. Aí vem a merda da curiosidade, seguida de um pensamento infantilíssimo que me envergonha até hoje: "Será que esse registro fecha a água da casa???". Não penso duas vezes.

Vlaft!

Era um chuveiro. Voltei pra mesa com o lado direito do corpo todo molhado.

Coisas que só acontecem comigo...



escrito por RODRIGO LOPES @ 15:10 - PESSOAS COMENTARAM


Terça-feira, Novembro 25, 2003






Tem que reparar


- Não reparou nada de novo?
- Ãhn?
- Viu o que eu mudei?
- Ai meu Deus! Odeio quando você me testa...
- Regra básica de convivência: um tem que notar o outro.
- E o Stevie Wonder?
- Não seja ridículo! O que eu mudei?
- Cabelo?
- Você sempre arrisca o cabelo, né?!
- Mas ele não tá diferente?
- Claro que não. Estou com esse cabelo há três meses!
- Mas você não era loura?
- Há um ano e meio estou morena...
- Nossa! O tempo vôa...
- Está vendo como você não repara em mim?
- Não faz drama! Engole esse choro...
- Sério, pô! Vivo me produzindo pra você e... nada! Vou te contar!
- O perfume?
- Não!
- Maquiagem?
- Não!
- Batom?
- Batom é maquiagem, imbecil!
- Pra ser estúpida você não fala com voz de coitadinha, né?! Depois...
- Depois o quê?
- Já sei!
- Fala!
- O sofá de lugar.
- Você tá maluco?
- Esse sofá estava aí?
- Desisto. A sobrancelha. Afinei.
- Ahhhh... Pôxa, realmente, a sobrancelha! Como não tinha notado! A sobrancelha! Que mudança, meu Deus!
- Pára de ironizar!
- Então é você? Sabe que quando cheguei no prédio o porteiro comentava que as pessoas daqui só falam na sua sobrancelha, é mole?
- Ridículo!
- Juro por Deus! Comentário geral: a sobrancelha fina daquela loura...
- Morena!
- Daquela morena do 701. Dá lincença que tenho mais o que fazer, Camila!

Dia seguinte, ela vai recebê-lo na porta e, antes mesmo dele entrar, pergunta sorridente:

- Adivinha o que eu mudei?
- De novo, Camila?
- Fala!
- Sobrancelha?
- Não!
- Claro que foi! Você falou ontem!
- Ah, meu caro! Ontem, depois que você foi embora, andei repensando umas coisas da minha vida...
- Hummm... então já sei, mudou o batom!
- Não!
- Mudança na sua vida? Deixa eu ver: a unha?
- Não, senhor irônico!
- O cabelo?
- Não!
- A sobrancelha?
- Já falou...
- O sofá?
- Você cismou com sofá, hein?! Não!
- Perfume?
- Não!
- O que foi, então?
- O namorado! Bye bye...

E fechou com a porta na cara dele.



escrito por RODRIGO LOPES @ 15:09 - PESSOAS COMENTARAM






Coisas que só acontecem comigo...


Episódio de hoje: "Nada como uma boa cochilada"

3h da manhã, de quarta para quinta.
Tinha trabalhado até essa hora e estava morto. Chamo um táxi para ir embora.
Trajeto: Flamengo - Jacarepaguá.
No que sento, no banco de trás, o taxista desanda a falar. Sabe aqueles taxistas que simplesmente não param de falar e, o pior: exigem tua participação no papo com perguntas do tipo "Concorda?", "O que você acha que eu fiz?" ou "Já viu uma dessas?". E eu doido pra dormir...
Na primeira bobeada dele, em São Conrado, caio no sono.

De repente, acordo com um barulho e um forte solavanco.
O táxi está fora da pista, todo torto. Ainda em São Conrado, perto do Joá (pros cariocas).
Cheiro de borracha queimada.
Olho pra trás, tá aquele rastro de terra do canteiro da pista.
Olho para frante, tá o taxista acordando também.

Coisas que só acontecem comigo...



escrito por RODRIGO LOPES @ 10:23 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Novembro 17, 2003





Amor, diz que me ama?!


Imagina a cena: filminho na tv, os dois misturados no sofá, ela sai para buscar uma água, volta, dá um abraço e fala:

- Amor, diz que me ama?!

Acho que todo mundo concorda que não existe coisa mais chata que insegurança dentro do casal. Aliás, chata e nociva. Como assim "diz que me ama"? Será que você não sente isso? E sabe o que é pior? Por mais que você a ame, não adianta ser sincero.

- Te amo!
- Jura?!
- Juro!
- Fala olhando pra mim!
- O que?!
- Fala olhando pra mim, então?!
- Você tá duvidando que eu te ame?
- Tá com medo de falar olhando pra mim?
- Eu tô vendo o filme. Essa cena é importante.
- Como sabe?!
- Todo mundo sabe!
- Ué, então que graça tem? Anda, fala olhando pra mim!
- Posso ver o filme em paz? Já falei que te amo!
- Claro que ama...
- Ai, meu Deus! Que foi, Fê...?!

Pô, mas se não adianta ser sincero, o que fazer? Uns vão pensar: enrolar! Tentar ganhar tempo. Nesse espaço, muita coisa pode acontecer: ela pode esquecer; o Brad Pit pode aparecer nu no filme; ela pode engasgar com a água; sei lá!

- Mas a gente tá junto, não está?
- Sim!
- Tá feliz?
- Muito!
- Pois então, te faço feliz!
- Sim! Muito!
- E a gente só faz feliz a quem ama, não é?!
- É!
- Pois então, sentir isso não é o principal?
- Não! Diz que me ama?

É, tentar ganhar tempo também não adianta! Aí você já começa a pensar na hipótese de ser mais firme e negar o pedido.

- Diz que me ama?
- Não!
- Porque?
- Ué, tá duvidando? Azar!

Meu amigo, você acabou de arrumar um problemão. Porque ou ela vai ficar P da vida. E mulher P da vida é sinônimo de vingança...

- Ah, é?!
- É!
- Então espera só pra você ver.

... Ou vai falar que nem criança.

- Ah! Diz, morequinho?
- Não vou falar!
- Fala pa¿eu!

Ou seja, que merda! E o pior é que você está num caminho sem volta. Vai ter que manter a posição até o fim.

- Dizer que te amo por quê?
- Ué, precisa de motivo para dizer que me ama?
- E você não precisa?

Era isso que ela queria: um argumento!

- Preciso. O motivo é te amar. Se você não sabe porque vai dizer que me ama, acho que a gente precisa discutir essa relação...

Xiiiiiiii! Não falei?! Agora já era. Vai ter que discutir a relação! E discutir a relação significa ter que faltar pelo menos duas peladas no mês. A rapaziada vai pegar no teu pé...

Quer um conselho, e isso serve para a mulher que namora homem mala também, nessas horas o melhor é se fazer de bobo.

- Diz que me ama?
- Que me ama!
- Não, bobo! Fala sério!
- Sério!
- Ai, mongol! É pra você dizer que me ama
- Que me ama!
- Desisto!
- Isto, isto, isto, isto, isto, isto, isto...
- O que você tá fazendo?
- Isto, isto e isto! Pronto: dez isto!

Enquanto ela não acredita no que acabou de ouvir, você dá um beijinho, um sorriso e pronto! Bom filme!



escrito por RODRIGO LOPES @ 10:01 - PESSOAS COMENTARAM







Ele pode


6h00. Acordo. É segunda. Ou seja, já está tudo errado! Mas ainda assim decido me levantar. Péssima decisão. Vou caminhando até o banheiro. Mil pensamentos surgem em minha cabeça: devo voltar pra cama? Banho ou xixi primeiro? Cadê meu aparelho de barbear? Quem foi o quarto presidente brasileiro? Espera aí, quarto presidente brasileiro? Pra que eu quero saber isso?!

Então chego ao destino de minha longa e melancólica viagem de quatro metros. Roupa de um lado, disposição de outro e eu no meio sem saber o que fazer. Escolho o chuveiro. Banho quente, lógico.

Aiiiiiiiiiiii! Cadê a água quente?! Auuuuuuu. Que frio, merda! Prudente de Moraes! Eu sabia! O Prudente de Moraes foi o quarto presidente brasileiro... e o vice? Não, Marcelo, não começa...

Depois desse banho, tudo se esclarece. As dúvidas dão lugar a duas certezas: primeiro, definitivamente não devia ter saído da cama; segundo, hoje Deus tinha me escolhido para se divertir. Sim, porque ele faz isso! Tenho certeza!

Parto para a barba. É claro que a espuma de barbear acabou... Decido fazer a seco. Quando estou terminando, noto uma outra embalagem de espuma escondida no canto da pia. Novinha. Mas isso não é nada, vocês vão ver!

Depois de me transformar numa lixa humana, resolvo me vestir para o trabalho. Vocês já usaram meia úmida? Usei hoje... pela primeira vez. É uma situação super confortável, principalmente quando metade dela sai e empapa no bico do sapato. Que coisa boa!

Mas o fato é que, apesar de tudo, estou pronto para mais um dia de trabalho. E que dia, suponho eu. No mínimo serei demitido. Com um pouquinho mais de empenho, talvez consiga um processo e, quem sabe, alguma decisão minha seja responsável pela falência de minha empresa... Isso se eu conseguir chegar ao trabalho. Ônibus ou metrô? Metrô. Mais rápido!

Greve! Nesse momento começo a rir. Um pombo faz cocô em mim. Meus olhos se enchem de lágrimas. Por quê, Deus? O que te fiz? O pombo volta, mas dessa vez sou mais rápido e consigo fugir dele. Aha! Te peguei, Seu sabichão... Nisso cai um raio no prédio ao meu lado. Entendo o sinal e volto para minha insignificância.

Começo a soluçar. Mas nem ligo, porque sei que logo, logo, levarei um susto. Passo a alternar soluço e espirro. Mas será possível?! Só falta aquele pombo voltar e... merda! Por que não calo minha boca?!

Decido ir de táxi! Como não tem troco? Não! Que história é essa de ficar me devendo? Quer fazer o favor de parar de rir, vai dizer que um pombo nunca te... Ah é? Jura? Mas como o senhor consegue? Ei, otário é a mãe! O senhor que pode ficar com esse troco! Duvido que saiba quem foi o quarto presidente americano, tá?! Foi Prudente de Moraes... Americano porra nenhuma! Eu disse quarto presidente brasileiro!

Saio vivo do táxi. Bom sinal. Talvez Deus tenha voltado ao trabalho e o dia comece a melhorar. O taxista ficou com o troco. Mas eu não ia discutir com alguém que não entende nada de história.

Pego o elevador. Ele passa direto pelo meu andar. Isso já está indo longe demais, Deus! Porque a implicância comigo??? Hein?! Como não pára no quarto, meu amigo? Veio assim da manutenção? E você não avisa antes, né?! Maluco é você! Falo com Deus sim, e daí?! Vou mandar te dar uma correção! Sou assim com Ele, meu amigo! Ué, amigos discutem, ora! Vá você!

Páro 5 andares a cima e desço de escada, com aquele aviso "Cuidado! Piso escorregadio". Sigo em frente. Passo por meu chefe normalmente. Chego a conclusão de que Deus deve estar me testando, vou agir como se nada estivesse acontecendo. Nada de discutir mais até o fim do dia!

Porra, quem levou minha cadeira? Senta você na lixeira... Vá pra merda, cacete! Quero minha cadeira, pô. Eu não estou gritando... QUEM DISSE QUE ESTOU GRITANDO? Ah! Vão se... Espera aí, por acaso vocês sabem quem foi o quarto presidente brasileiro, seus malandrões...? Hein? Hein? Prudente de Moraes? Ah... errou! Errou sim! Errou sim! Errou! Tá, mas quem foi o vice? Como Manuel Vitorino? Sério? Vocês querem parar de rir! Vai dizer que um pombo nunca acertou você... Muito engraçadinhos... Vão pra... Ãhn? Quem me chama? Claro, chefe! Sim, eu vou! Onde?! Guatemala?! Ah! Fala sério, chefe. Guatemala é sacanagem...

É... Deus sabe se divertir. Mas tudo bem, Ele pode.



escrito por RODRIGO LOPES @ 09:56 - PESSOAS COMENTARAM







Destino


Eles nasceram em lados completamente opostos da cidade.
Estudaram em escolas diferentes, fizeram faculdades diferentes.
Não gostam das mesmas coisas, não têm amigos em comum.
Nunca se esbarraram nessa vida.

Ah! Quer saber?! Não vai ser essa crônica que vai mudar isso!
Melhor parar por aqui.


escrito por RODRIGO LOPES @ 09:52 - PESSOAS COMENTARAM







A vingança



Se tem uma coisa que eu odeio é "parabéns pra você" em restaurante. Principalmente quando o restaurante é daqueles em que os garçons saem correndo de onde estão para engrossar o coro. É impressionante porque eles simplesmente largam o que estão fazendo para ficar batendo palma em volta de uma pessoa nitidamente constrangida.

Às vezes, o medo de chegar atrasado àquele momento especial é tão grande que nem dá tempo de largar o que estão fazendo. E não tem sensação pior do que você ver o teu garçon chegando com o chopp que você pediu e passando direto pela tua mesa para se juntar a um aniversário que não tem nada a ver contigo.

Quer dizer, como se já não bastasse você ser exposto ao amigo engraçadinho do aniversariante que vai repetir aquela piada velha de ficar cantando só o "parabéns pra você" na melodia inteira; como se já não fosse o suficiente você ter que ouvir aquela amiga encalhada puxando o "com quem será"; ainda é obrigado a beber chopp quente e com aquele colarinho desbotado.

E sabe o que é pior? É que sempre um parabéns puxa outro. Pode reparar: em todo restaurante existe uma mesa tímida que estava apenas esperando que alguma outra comemorasse seu aniversário para também fazê-lo. Olha, isso não demora uns 20 minutos. Cantou parabéns numa mesa? Em menos de 20 minutos estará acontecendo o mesmo em outra.

E lá se vão os garçons de novo. Com o meu chopp, claro...

Juro que um dia perco a paciência, levanto de minha mesa e vou até a comemoração começar minha vingança.

- Pára tudo! Pára tudo! Gente, isso está horrível!

Antes do pessoal se dar conta do que está acontecendo, sigo em frente.

- Quem é o aniversariante?
- Sou eu!
- Olá! Muito prazer e parabéns! Meu nome é Rubens e eu vim aqui organizar o "parabéns pra você"...
- Como é?
- Isso mesmo! Levanta, você está num lugar péssimo! Que aniversariante é esse que fica no canto da mesa?! Senta ali no lugar daquela senhora de azul. (...) Pronto! Ficou bem melhor!

Todos me olham sem entender o que está acontecendo.

- Agora, você, você e você: reparei que são os mais afinados da turma. Vocês podiam se espalhar e cantar bem alto, pra ver se a gente consegue salvar esse coro que está uma merda, ok?!
- Ok!
- Vamos lá, pessoal! Vamos ver como fica! Parabéns pra você...
- ... nessa data querida. Muitas...
- Pode parar de novo! Já deu!

Faço uma pausa. Coço a cabeça. Dou um suspiro e continuo.

- Vamos tentar outra coisa! Levanta todo mundo! Anda logo, pessoal, meu jantar está esfriando! Levanta todo mundo!
- Isso é realmente necessário?!

Subo numa cadeira.

- Atenção! Todos olhando pra mim porque vou falar só uma vez: quero os desafinados e os contraltos todos juntos ali na ponta da mesa, a partir do medalhão com arroz à piamontese!

Pausa.

- Isso! Tá melhorando! Agora, quero todos os sopranos e os desafinados que acham que sabem cantar - e, acredite, isso inclui a senhora - da batatinha pra cá. Ah! E calados! Porque pior que soprano e gente que acha que sabe cantar só mesmo o pudim daqui. É flan, repararam?
- Já tinham me dito isso...
- É horrível! Meu amigo, é da batatinha pra cá. Isso aí é um aipim...
- Ih! É verdade!
- Garçons, vocês são amigos do aniversariante?
- Não!
- Já o tinham visto antes?
- Não!
- Sabem pelo menos seu nome?
- Não!
- Então o que estão fazendo aqui?

Pausa com olhar de repreensão.

- Voltem ao trabalho imediatamente. E, você, aproveita e leva um chopp pra mim na minha mesa.
- Pode deixar, senhor!
- Ótimo! Qual vai ser a amiga encalhada que vai puxar o "com quem será"?
- Ei, encalhada uma vírgula...
- Olha é a tua cara cantar isso, sabia?! Quase que nem pergunto. Mas vamos lá: que tal sentar do lado do cara que vai cantar aquela do "aha uhu ô fulano vou comer teu bolo...".
- Já estou! É meu namorado! Ele que sempre puxa essa...
- Não me diz que você também é o cara que fica cantando só o começo da música e acha isso engraçado, é?!
- Sou eu, sim...
- E tem orgulho disso, não? Taí, moça, era melhor estar encalhada, vai por mim. Bom, onde estava?! Ah! Sim! Acho que está ficando tudo certo... espera, espera, espera...

Desço da cadeira, bastante desanimado, levando as mãos ao rosto.

- Quem pediu arroz à grega?
- Eu pedi!
- Você de novo?
- Pô!
- Olha, vou ser sincero: arroz à grega não dá! Assim fica difícil! Você poderia se retirar, por favor?!
- Mas eu sou o aniversariante...
- Meu amigo, não mandei pedir arroz à grega. Assim já é demais... Olha, desisto! Vocês não têm jeito. Podem continuar aí sozinhos porque eu estou fora! - e saio irritado da mesa.

Juro que faço isso um dia...



escrito por RODRIGO LOPES @ 09:16 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Novembro 10, 2003





Extra! Extra!



Birmingham, Alabama - Cientistas da Universidade de Birminghan, estão comemorando um feito inédito: pela primeira vez na história da ciência, estudos puderam comprovar o exato instante do início de uma TPM.

A notícia foi divulgada pela Dra. Sara Nunes, responsável pela equipe de pesquisadores que monitorou um casal ininterruptamente durante três semanas. Os estudos completos serão publicados até o fim do ano. No entanto, nossa redação já teve acesso ao registro que levou à conclusão do trabalho.

- Neném
- Ti foi?
- Neném tá com xede...
- Neném tá com xede?!
- É! Neném tá com xedinha! Pega água pra neném?
- Neném tá canxado!
- Ah! Pega ááááááááágua!
- Mas neném tá canxaaaaaaado!
- Puta-que-pariu, Arnaldo! Você é um imprestável, mesmo!



escrito por RODRIGO LOPES @ 09:04 - PESSOAS COMENTARAM







Lado de fora do Jardim do Éden, dia dois...


- Desculpa, amor! Era só uma maçãzinha...
- Pois essa maçãzinha arruinou a minha vida. É o fim da nossa boca-livre!
- Ai, Adão! Mas você também reclama de tudo!
- Eva, na boa, você vive se queixando que tá gorda. Diz que vai fazer regime, vai começar a malhar e tal. Tinha que comer aquela porcaria de maçã?
- Mas a Serpente disse que era deliciosa!
- Mas é a merda do olho-grande. Passei o dia inteiro caçando javali. "Ah! Porque eu tô com vontade de comer um javali..." "Você bem que podia trazer um javali, hein?!". Javali pra cá, javali pra lá. O dia inteiro me enchendo a paciência até eu ir caçar a porcaria do javali. Aí, porque a Serpente disse que a maça estava gostosa, você e sua gula enorme...
- Meu amigo, maçã é sobremesa, dá licença?! Pára com o drama e vamos tratar de arrumar um cantinho aqui e vai ficar tudo certo!
- Eva, não vai! Aquilo era o paraíso... Você acabou de inventar o aluguel. Porque você não começou a dieta que vive prometendo, droga?!
- Você disse que eu não precisava...
- Eu menti, cacete! Pronto! Falei.



escrito por RODRIGO LOPES @ 10:26 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Novembro 03, 2003





Reencontro



- Oi! Quanto tempo...
- Que saudade! Como você está, menina?
- Estou bem. E você?
- Muito bem, também! Mas você está a mesma coisa...
- Sempre galanteador! Casou?
- Eu? Casar? Até parece que você não me conhece.
- Outra coisa que não mudou... Sempre fugindo dos relacionamentos sérios!
- Tô brincando. Acho que dessa vez não vou ter como escapar.
- Ih! Quem diria, hein?! Mas também já estava na hora...
- Pois é. E você?
- Eu casei há doze anos.
- Jura?
- Com o Léo, lembra dele?
- O Léo baixinho?
- Ele nem é tão baixinho assim...
- Mas é claro que lembro dele! Só não podia imaginar que vocês um dia iam ficar juntos...
- Pois é! A vida tem dessas!
- Se tem... Olha só: o que acha de marcarmos um programa de casais essa semana? Pode ser um cineminha...
- Ótima idéia! Adorava ir ao cinema contigo!
- Nossa! Faz muito tempo que não saímos...
- A gente sempre se divertiu muito junto, não é?!
- Sempre! Desde o colégio.
- E éramos muito apaixonados também.
- É verdade. Acho que vou sempre gostar um pouquinho de você.
- Paulo, o que deu errado com a gente? Você lembra porque a gente terminou?
- Ah, Bia! Sei lá. Éramos muito novos...
- Muito!
- Tínhamos muitos planos...
- E como!
- Muitas ilusões...
- Todas!
- Você era bastante imatura...
- Ok! Acho que já me lembrei! Bom, passar bem!
- Ih... continua estouradinha!
- E você continua grosso!
- Não tinha alguém indo embora? Acho até que era você...
- Vou mesmo! Passar bem!
- Vai lá, sua... Ah! E dá um abraço naquele anão do teu marido!



escrito por RODRIGO LOPES @ 10:25 - PESSOAS COMENTARAM







Indelicadeza


- Olha, desculpem a total falta de indelicadeza do meu colega!
- "Falta de indelicadeza"?!
- Como não?! O senhor não precisa tampar o sol com a peneira...
- Não, estou "tampando" o sol com a peneira, só estou dizendo que não foi "falta de indelicadeza"...
- Disconcordo! Vocês são criente vip da casa.
- Mas nós nunca viemos aqui, meu amigo!
- Ah! Mas pra gente isso não importa. Passou daquela porta é criente vip.
- Nossa! Assim fico tão lisonjeado...
- Peraí! Peraí! Já pedi desculpa. Aí também o senhor já está faltando com o desrespeito...
- Ai meu Deus! Eu posso com isso?!
- Bom, isso já não posso dizer-des. Só vim aqui mesmo lhe agradecer ao senhor pelo fair pray aí com o nosso colega da casa, diante de sua total falta de indelicadeza.
- Tudo bem! Desculpas aceitas. Mas por que o seu colega não veio pedir desculpas ele próprio?
- O meu colega?
- É! Seu colega!
- Positivo, meu colega!
- E então?!
- Não, é que...
- Fala!
- Ih, rapaz! É que ele tá lá no interior da cozinha... é... ocupado.
- Ocupado?
- Positivo, ocupado!
- Fazendo?
- O senhor quer mesmo saber?
- Fala, meu amigo!
- É que o meu colega está tentando cuspir no picadinho que os senhores pediram... Mas, olha, pode ficar tranqüilo! Porque tá os colega tudo tentam impedi-lo de cometer mais essa falta de indelicadeza com o senhor e a sua senhora distinta aí.
- Laura, vamos embora!
- E digo mais: se ele conseguir, parece que até agora só acertou na couve, os senhores vão ganhar uma cortesia de graça da casa!
- Cortesia da casa? Laura, vamos logo!
- E o picadinho, senhor?!
- Meu amigo, pega o picadinho e faz o que o teu amigo tinha sugerido.
- Mas... no teu?!


escrito por RODRIGO LOPES @ 10:10 - PESSOAS COMENTARAM








Lado de fora do Jardim do Éden, dia seguinte...


- Tá vendo a merda que você fez?! Satisfeita?!



escrito por RODRIGO LOPES @ 12:09 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Outubro 06, 2003





O restaurante japonês



Mesa 07 - O wassabi

- Bota o wassabi! Bota o wassabi!

Era sempre assim. Ele vivia insistindo pra ela colocar wassabi no molho shoyo. E ela sempre dizendo:

- Você sabe que eu odeio pimenta!

A Clarinha era dessas pessoas cujas papilas gustativas não foram treinadas para reconhecer os alimentos por serem doce, salgado, amargo etc. Nada disso! Suas papilas ficavam todas misturadas e separavam os alimentos em dois grupos: "gosto!" e "odeio!".

Do grupo do "odeio!" faziam parte a pimenta, a cebola, o pimentão, o Strogonoff da mãe do Bruno e, claro, o wassabi.

- Isso não é pimenta, Clara! Já te expliquei a diferença!
- Bruno, é tudo ardido. Odeio!
- Por que não experimenta? Dá um toque especial. A comida desce que é uma beleza!
- Ai Meu Deus! Deixa eu comer do meu jeito?
- Teu jeito?! Essa é uma comida milenar, garota. Os Samurais comiam assim. Imagino se um deles te ouvisse falar essa heresia...
- Um Samurai, Bruno?! Nesse rodízio de comida japonesa?
- O que tem?
- O que tem que é um rodízio de comida japonesa, Bruno... Se ainda fosse um restaurante chique...
- Ah! Esqueci que você é fresca. Pois saiba que a comida aqui é muito gostosa!
- Uma delícia. Tanto que as moscas não conseguem sair de cima.
- Eu não tô vendo nenhuma mosca aqui...
- Claro, com essa cara feia que você tá fazendo, que animalzinho vai querer chegar perto?
- Clara, quando você resolve ser implicante, sai de baixo! É duro de engolir!
- Ah! É duro de engolir?!
- É sim, senhora!
- Bota wassabi, Bruno! Bota wassabi!

E eles combinaram de nunca mais olhar para o prato do outro.



Mesa 23 - O hashi

- Guto, deixa de ser infantil!
- Rrrrrrrrrrrr
- Tira o hashi da boca!
- Rrrrrrrrrrrr
- E vampiro não faz Rrrrrrrrrr.
- Como você é perfeccionista! Meu Deus!
- E como você é retardado...
- Mas bem que você gosta, minha filha...
- Shhhhh... fica quieto!
- O que foi?
- Calma aí. Estou tentando ouvir o que aquele casal ali tá falando. Acho que eles estão brigando.
- Você não perde essa mania de se meter na vida dos outros...
- Tudo bem, Guto! Mas por que você não tira o hashi da boca antes de me dar lição de moral?
- Caraca! Tinha esquecido...



Mesa 11 - Mr. Banzai

- Blá blá blá

Se tinha uma coisa que irritava o Rui era a Gigi falar "blá blá blá" no meio de uma discussão. E ela sempre fazia isso.

- Gildirene!
- Gigi, Rui! Gigi!
- Então pára com esse blá blá blá quando a gente está discutindo!
- Quem está discutindo aqui, Rui?! Você que tem que reclamar de tudo. Mal chegamos e você já acha o restaurante o pior do mundo.
- Isso não é verdade. Mas o melhor do mundo eu sei que ele não é!
- Quem te garente?
- Mr. Banzai, Gigi... Olha o nome do restaurante!
- Qual o problema, Rui? Ele tinha que ter um nome, ora.
- Mr. Banzai! O nome é tudo! Não pode ser boa coisa. Não impõe, sabe?!
- Mas a comida poder ser boa... A gente veio aqui para comer, não para ficar repetindo o nome do restaurante.
- Mas eu duvido que a comida seja boa. Não dá, Gigi! O nome é tudo!
- Ué, meu nome é Gildirene e você é meu namorado...
- É verdade! Talvez a comida seja boa!
- Ai! Seu grosso!



Mesa 21 - Me passa o shoyo?

- Esse shoyo light é bom?
- Nunca provei. Odeio coisa light!
- Sabe, você é uma mulher muito esquisita!
- Nossa, João! Você sempre muito simpático... obrigada!
- Não sacaneia. Não falei por mal! É que você é diferente de todas as mulheres que conheço.
- Só porque odeio tudo que é light?
- Também!
- Também...?
- Você se veste rápido, tem time de futebol, odeia teatro, ronca, beb...
- Eu ronco?
- Me passa o shoyo?
- Hein? Eu ronco?
- Não olha agora. Mas reparou que aquela mulher da outra mesa tá prestando atenção no que a gente está falando?
- Pára de besteira! Eu ronco?
- Sério! Disfarça e olha.
- Qual?
- Aquela, que tá com aquele retardado com hashi na boca...
- Ele tá imitando um leão marinho?
- Não sei, acho que é um vampiro...
- Mas vampiro não faz Rrrrrrrrrrrr
- É. Deve ser um leão marinho, mesmo. Mas não importa. Viu como ela tá disfarçando e prestando atenção na gente?
- Vamos sacaneá-la, João! Fala sacanagem pra mim!
- Tá vendo como você é diferente?
- O que?
- Que mulher iria propor isso?
- Me chama de piranha, anda!
- Você tá maluca?
- Me bate, seu safado!
- Que isso?! Mulher louca!
- Vem, meu garanhão! Faça o que quiser comigo!
- Garçon, a conta, por favor!



escrito por RODRIGO LOPES @ 19:56 - PESSOAS COMENTARAM


Quinta-feira, Outubro 02, 2003





A noite é uma criança


A noite é uma criança. Mas vá explicar isso para um garçon...

- Senhores, vamos fechar daqui a pouco...
- E aquela história de ficar aberto até o último cliente ir embora?
- Mas os senhores são a última mesa. E a penúltima foi embora há duas horas, junto com o cozinheiro.
- Já faz tanto tempo assim? Espera: o cozinheiro já foi?
- Já sim. Mas os senhores podem ficar à vontade.

Imagina a cena, caro leitor: cinco amigos, ligeiramente bêbados, às 4h da manhã, sentados num barzinho, daqueles que têm música ao vivo. Só eles no bar. Os garçons em volta da mesa falando sobre como era demorada a volta para a casa. Uma tentativa clara e mesquinha, há de concordar, de tentar convencer os amigos a ir embora.

Veja bem: os cinco naquele momento sagrado em que você encara cada copo vazio como uma pequena vitória e um daqueles caras de gravata borboleta dizendo "Ir pra Ramos agora? Tá louco..." com o outro respondendo "Isso não é nada, tenho que ir pra Queimados. Duas conduções e uma van. Chego lá no Faustão."

- Como ficar à vontade com vocês secando a gente?
- Calma, Armando!
- Como calma, Tutuca?! Os caras estão expulsando a gente dessa espelunca!
- Tá! Então vamos embora dessa "espelunca" porque depois dessa vão cuspir no nosso chopp.
- Foi mal...
- Relaxa! Pra onde?
- Vamos pro Estupendo?
- Tá maluco? A porção de frango à passarinho de lá é safada pra cacete.
- Mas você quer comer frango à passarinho agora, Pimenta?
- Não. Mas prometi pra mim mesmo que não voltava lá. Que tal o Flor do Lodo?
- Ah! Acho que já fechou. Lá fecha cedo desde que a gente ficou cantando Saigon, 4h e tanto da manhã, em frente ao prédio vizinho praquela gostosona do primeiro andar, lembram?
- Putz! Mas esse não era o Saideira?
- Não! Saideira foi quando a gente queimou a toalha tentando fazer sinal de fumaça pra chamar o garçon!
- Pode crer. O Jarbas!
- Não, o Alcindo. O Jarbas é aquele careca emburrado do Encruado.

E eles ficaram algum tempo discutindo onde aquela noite terminaria. O bar perfeito pra saideira tinha que ter bom atendimento, ser perto dali, chopp gostoso, preço bom e, claro, caldinho de feijão com torresmo (nada de bacon!). Ah! E tudo isso às 4h da manhã.

O problema é que as opções iam surgindo e nada de chegar ao veredito. Até que o Binho, o caçula daquele grupo, levanta de sua cadeira, olha cada um nos olhos e dispara:

- Meus amigos! Em minha pequena, mas intensa experiência como pinguço, aprendi que na boemia, assim como no amor, não se pode escolher.

Todos se surpreenderam com o que o garoto estava dizendo. Logo ele, que sempre ficava calado nesses momentos. E continuou:

- É verdade, amigos! A coisa simplesmente acontece. Acho até, se me permitem, que em algum lugar desse mundo nasceu o bar que nos completa, o bar de nossas vidas. Nossa alma gêmea.

Nesse momento, até os garçons já tinham puxado uma cadeira para ouvir as sábias palavras do jovem boêmio.

- Procurar um bar só traz dor de cabeça. Ainda mais quando a cerveja é ruim. Procurar um bar é viver de aparência. Como aqueles caras que pegam a mulher porque é gostosona, ou as meninas que só sonham com os caras populares. Não, amigos! Isso é resumir uma relação de cumplicidade a uma mera análise de custo-benefício. Voto por não ter voto. Se alguém tiver que escolher, que seja o bar. Mas o que quero mesmo, o que desejo do fundo de minha alma, é que a gente se descubra... As opções que todos colocaram são ótimas. Mas temos de ser flechados pelo cupido da boemia. Porque é ele que deixará os dois dedinhos de colarinho tão irresistíveis que não nos restará outra coisa senão abrir um sorriso, inflar o peito, pedir outra rodada e começar essa nova história. Mas antes...

Todos se ajeitaram na cadeira para o grand finale.

- ... eu preciso mijar urgentemente!


escrito por RODRIGO LOPES @ 17:56 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Setembro 29, 2003





Como tudo começou (versão machista)


Um dia, no Jardim do Éden, o Adão chamou Deus.

- Deus, vamos bater um papo?!
- Qual é o problema, Adão?
- Ah! Esse é meu nome?
- É sim, não tinha te falado?!
- Não. Só Adão?
- Sim. Só Adão. Mas qual é o problema?
- Ninguém falou em problema aqui... Só tô precisando de uma ajudinha.
- Diga!
- Seguinte: estou cansado. Não agüento mais ficar cozinhando, lavando folha, limpando a caverna. Preciso que o senhor adestre um macaquinho pra que ele faça isso pra mim. Que tal? Depois a gente pode até levá-lo pro Fantástico.
- Adão, minha criação preferida, tenho a solução para os seus problemas.
- Ihhhhh... já senti que é fria...
- Vou criar uma mulher.
- É. Deve ser fria. O que vem a ser uma mulher?
- Difícil de explicar.
- Ah! Agora eu fiquei tranqüilo...
- A mulher é teu oposto, Adão.
- Desenvolva...
- Ela pensa diferente, sente diferente, age diferente de você.
- Você está querendo dizer que ela me completa?
- Na verdade eu estou querendo dizer que ela vai te encher a paciência, vai pedir pra você parar de beber, vai querer controlar seu horário, vai dizer que você mente, vai ter um monte de amigas que vão te odiar, vai te perguntar se ela está bonita a cada cinco minutos, vai viver fazendo dieta, vai reclamar dos teus modos, vai reclamar praticamente de tudo que você fizer ou disser.
- Tô fora... Isso não é mulher, isso é um encosto...
- Mas calma aí! Ela cozinha, passa, lava, arruma a gruta. Fica cheirosa pra você e vai te satisfazer fisicamente, se é que me entende... Que tal?
- Tô muito fora...
- Pô... leva uma aí...
- Na-na-ni-na-não! Isso é fria... você não vai me enganar... essa costela aqui é irmã dess... espera aí! Cadê minha outra costela?
- Eu tirei...
- Como assim eu tirei? Então porque colocou? Se ia tirar...
- Ah! Não reclama, Adão! Tirei pra fazer uma mulher pra você...
- Vem cá, o Senhor vai me dar um osso?!
- Nunca ouviu a expressão "roer o osso", Adão???
- Deus, que piada horrível...
- Eu gostei! Olha, logo você estará recebendo sua encomenda.
- Que fique registrado na bíblia que eu não encomendei nada. Só queria um macaco adestrado pra limpar tudo.
- Vais levar a Eva, meu caro. Vou fazê-la bem bonita, deixa comigo.
- O nome dela será Eva? Que tal Fernanda Lima?
- Eva! E, como você foi o primeiro a ligar, vai ganhar também uma plaquinha de madeira com o nome do casal gravado.
- Adão e Eva?
- Que feio, Adão! Você tem que ser um cavalheiro! Mulheres primeiros. Ok? Eva e Adão?
- Ok!
- Ah! Assumiu???
- Foi para fazer essa piada que você colocou esses dois nomes???
- Você é muito mau humorado...
- Deus, parei contigo!



escrito por RODRIGO LOPES @ 16:45 - PESSOAS COMENTARAM







A última vez


Não faz muito tempo, a Maria disse para o Alfredo que aquela seria a última vez. "Olha, Fredico! Essa foi a última vez, hein?! Pra mim, chega!". Ela fazia isso sempre. Desde que se conheceram numa festinha da turma na casa do Jonas.

A reação do Alfredo também não mudava: um "sei" baixinho, virava de costas, resmungava alguma outra coisa e saía de perto. Pronto para próxima.

Os motivos eram os mais variados. Desde o ronco ensurdecedor na cama até a divergência quanto à programação da TV. Às vezes, a coisa parecia ser para valer e o motivo era realmente sério, como no caso da dançarina de Cancan ou do suflê de chuchu queimado.

Mas bastavam uns dias, geralmente quatro, para tudo voltar ao normal. E logo, logo, estava o Alfredo aprontando novamente.

Só que dessa vez, o silêncio e a cara emburrada já estavam chegando ao nono dia. E Alfredo começou a pensar na hipótese da Maria ter falado sério.

- Maria!

Silêncio. Ele riu por dentro e pensou: "Azar..."

Dois dias depois, a mesma coisa: "Maria!". Mas dona Maria parecia decidida. Em 43 anos de casados, o Fredico nunca tinha visto sua mulher tão brava. Nenhum músculo, ela mexia. Não havia um sinal qualquer de afetividade. Ela levantava da cama, preparava o café, ia fazer palavra-cruzada, conversava ao telefone com a Glória, preparava o almoço, tirava a mesa, descansava um pouco, falava com a Dona Iara pelo muro, cuidava do Chico - seu papagaio, fazia a janta, ia ver tv e dormia. Tudo isso sem uma só palavra, sem um só sorriso.

- Maria! Fala comigo!

Nada. A greve já avançava pelo seu décimo sétimo dia. E Alfredo finalmente teve de admitir que não havia outra coisa a fazer, senão reconhecer sua derrota. Então, ao final do jantar, e sem olhar no olho de Dona Maria, ele falou:

- Tudo bem, Maria! Sei o que você quer. Eu dou meu braço a torcer e admito: você está com a razão!
- Complete...
- Você está com a razão! O Roberto Leal é melhor que o Julio Iglesias. Satisfeita?
- Melhor, não! Ele é muito melhor!
- Muito melhor já é demais. O Julio Iglesias faz sucesso no mundo inteiro e o Roberto Leal só vende disco pra torcida do Vasco e da Portuguesa.
- O Julio Iglesias só sabe gemer. Não tem a menor presença de palco.
- Maria, você não entende nada de showbizz.
- Ah! Eu não entendo, Sr. Carlos Machado?!
- Você só entende de ficar falando com a Gloria e essa Dona Iara fofoqueira.
- Não fala assim das minhas amigas!
- Falo sim! Bando de fofoqueiras! Aposto que até elas acham o Julio Iglesias melhor!
- Olha, Fredico! Essa foi a última vez, hein?! Pra mim, já chega!
- Sei...

E tudo voltou ao normal.



escrito por RODRIGO LOPES @ 16:42 - PESSOAS COMENTARAM







Prato pra dois


Tudo começou quando eles estavam na fila do buffet da comida a quilo e um senhor que estava na frente deles pegou o último pastelzinho de queijo da travessa. Rafael deu um resmungo, ela ouviu e sorriu.

Depois de um breve desencontro, graças à incursão dela pela ala das saladas, os dois voltaram a se encontrar na fila do churrasco. Uma troca de olhares aqui, uma rápida inspeção do prato do outro ali e logo estavam conversando.

- Isso é rúcula?
- Não, é beterraba. Rúcula é verdinha.
- Odeio verde.
- Eu adoro.
- Eu vi. Verde, pra mim, só M&M ou jujuba.
- Devia experimentar, faz bem para a saúde.
- Claro, esse cupim que você pegou também.
- Nossa! Quem colocou esse cupim aqui?! Tá bom... tá bom... assumo. Adoro cupim!
- Taí uma qualidade difícil de se encontrar numa mulher!
- Gostar de cupim?!
- Sim! Do que mais gosta?!
- Mmmmm... Deixa eu ver... rabada...
- Nossa!
- Dobradinha...
- Hummmm
- Salgadinhos gordurosos...
- Meu Deus!
- Lombo com batata...
- Não pára! Não pára!
- Sardinha frita...
- Ai...
- Torresmo...
- Deus, é você disfarçado de mulher?!
- Deixa de ser bobo...
- Sério. Você é perfeita. Mal te conheço, mas...
- O que?
- Olha só, imagina que estou diante do último pedaço de moela do mundo. Um único pedacinho de moela, com aquele molho bem temperado e uma rodelinha só de pão francês...
- Sim...
- Eu dava pra você.
- Foi a coisa mais linda que já me disseram...
- É! E dava também o coração!
- De galinha?
- Não, o meu...
- Aceito... os dois.



escrito por RODRIGO LOPES @ 23:34 - PESSOAS COMENTARAM


Domingo, Julho 20, 2003




Um parnasiano (história verídica...)


"Olha que dia lindo! Esse céu azul, esse mar. Olha o mar. Coisa bonita! Como brilha?! Sente a brisa... Vou abrir a janela rapidinho, tá, doutor?! Olha só que maravilha... Ah! Rapaz! O Rio de Janeiro é lindo demais. Que clima, que lugar, onde a gente pode achar um dia assim? Me diz. O senhor deve ser viajado. Eu não consigo imaginar nada melhor. Coqueiro, mar, gente bonita, pássaros, paraíso. Que dia! Meu Deus! Sabe o que dá vontade de fazer? Parar o táxi e admirar o horizonte. Sem pensar em tempo, em dinheiro, em nada, doutor. Só parar e olhar. Sentir a brisa, sentir o cheiro da vida. A vida tem cheiro, doutor! Mas a gente nem percebe. Nossa! Como dá vontade de ficar só olhando para o dia. E ficar horas. Depois, com uma mulher bacana do lado, comer um peixinho no limão, tomar um choppinho, conversar, rir, namorar. Aí no fim do dia, um motel. Porque esse dia inspira, né?! Dá vontade de passar a noite inteira comparecendo, o senhor me entende?! Taí: bela idéia! Sim! E a patroa em casa que se foda..."




escrito por RODRIGO LOPES @ 23:26 - PESSOAS COMENTARAM







A marrennnnta



- Eu não sou marrennnnta!
- É sim!
- Não sou!
- E não é "marréééééénnnnnta": é marrenta.
- Por que sou marrenta?
- Porque é.
- Exemplo?
- O simples fato de não aceitar que é já te faz marrenta.
- Isso não pode ser considerado indignação?
- Não no seu caso...
- Não sou marrenta!
- É. Mas tudo bem...
- E você, o que é, hein?
- Tá vendo?! Olha só o teu jeito de falar?! Marrenta...
- Isso é personalidade forte, meu filho!
- Não no seu caso...
- Arrrrrrrrrrrgh
- Resmungo de marrenta!
- De raiva, isso sim!
- Não no seu caso...
- Tudo no meu caso... Tudo no meu caso... Quer dizer que se eu fosse outra pessoa não seria marrenta?!
- Impossível!
- Impossível deixar de ser marrenta?
- Não. Impossível você querer ser outra pessoa. É marrenta demais para isso...
- Desisto, meu...
- Taí, paulista. Adoro esse teu "meu"...
- É? É "maneiro", Nando?
- Não, é marrento...
- Arrrrrrrrrrrgh



escrito por RODRIGO LOPES @ 21:28 - PESSOAS COMENTARAM


Sábado, Julho 19, 2003





Vai entender...



Ana?
Fala, Beto.
Tudo bom?
Tudo bem, Beto.

Você nota que uma pessoa não está afim de papo quando ela arruma um jeito de colocar o seu nome em todas as frases.

Mesmo?
Mesmo, Beto!
Ana, toda vez que você fica repetindo o meu nome eu sei que tem merda. Fala o que eu fiz...
Você acha isso, Beto?
Ihhhhhh
Ihhhhh o quê, Beto!
Quer parar?
Parar com o quê, Beto?
Parar de repetir meu nome...
Tá bom, Beto!
Arghhhhhhhh
Beto?!


escrito por RODRIGO LOPES @ 21:17 - PESSOAS COMENTARAM







Holerite



O que é isso vermelho aí no seu braço?
Ih, rapaz... acho que é holerite.
Nossa! Que chato, hein?!
Mas já está terminando.
Foi o quê?
Reação alérgica a uma coxinha que comi lá no Centro.
Isso é sério. Tem uma prima minha que tem.
Holerite?
É.
Por reação alérgica?
Trio Los Angeles.
O quê?
Isso. Reação alérgica ao Trio Los Angeles. É aparecer na tv pra ela começar a se coçar.
Que estranho...
Nem me fala... dizem que é incurável...
Se é... E você?
Eu nunca tive holerite... quer dizer, eu costumo a assistir aos jogos da seleção com a mesma roupa.
Isso é superstição!
Mas é que coça...
Isso é sujeira!
Não. Coça só quando o Vampeta entra em campo...
Ih, rapaz... isso é holerite!
Jura?
E das brabas....
Droga! Eu sabia...



escrito por RODRIGO LOPES @ 20:56 - PESSOAS COMENTARAM








A barata



Defendo a teoria de que não há homem no mundo capaz de dizer não a uma mulher.

Quer dizer, tirando o meu vizinho que, no último carnaval, bastou ouvir o cantor da bandinha gritando "Vamos lá, minha gente! Muita alegria e pau no samba!", para sair pelas ruas cantando "Eu sou o samba... sou natural daqui do Rio de Janeiro..."

Fora esse cara e simpatizantes, não há homem no mundo capaz de dizer não a uma mulher. É verdade! Imagino até como seria o mundo se elas tivessem dado pitaco em determinadas horas...

- Alô, Baggio querido?
- Oi, bella!
- Meu amor, se o jogo for ser decidido nos pênaltis, promete que bate rasteiro?!
- Sei não...
- Ai... por favor...
- Tudo bem, prometo! Bato no chão, querida!

Ou ainda:

- Hitler, vem cá!
- O que foi?
- Eu gosto dos judeus.
- E daí?
- E daí que você vai parar com essa implicância!
- Ãhn?
- Ai... por favor...
- Tá bom! Tá bom!

Há alguma coisa mágica nesse "Ai... por favor..." que deixa os homens completamente indefesos e influenciáveis. Eu não sei muito bem o que é; nem por quê. Mas é a mais pura verdade!

Talvez essa discussão seja besteira e a razão seja simples e óbvia: as mulheres ficam lindas dizendo "Ai... por favor...".

- Aaaaaaaaii, uma barata! Socorro!
- Mata, ora.
- Você tá maluco?! Aaaaaaii, ela mexeu.
- Claro, ela está viva. Bate com um chinelo que ela pára de mexer...
- Mata você, por favor...
- Ok. Sem problema! Faz o seguinte: você coloca o telefone bem perto dela que eu vou dar um berro. Vai que ela é cardíaca...
- Não brinca, Rafa. Mata ela. Aaaaaaaii, ela tá andando...
- Dani, estou na Urca. Você, seu chinelo e a barata estão na Barra... preciso realmente te convencer que isso é loucura?!
- Por favor...
- Não tem ninguém aí?
- Não.
- Vizinhos?
- Você acha que eu vou chamar um vizinho para matar uma barata aqui???
- Claro. Faz todo sentido...
- Não dá, tenho vergonha... Mata ela, por favor!
- Vergonha???
- Tá bom! Tá bom! Não precisa vir, seu insensível. Eu mesma mato.

Um parêntesis. Não sei se vocês já repararam, mas as baratas são grandes estudiosas do comportamento humano. Dotadas de uma ótima capacidade de observar o ambiente à sua volta e de um terrível senso de humor, elas costumam se comportar da seguinte maneira diante de pessoas que têm medo:

Primeiro, aparecem dando a impressão de que foram descobertas, o que no fundo é uma grande maldade. Afinal a pessoa fica achando que já convivia com ela há muito tempo sem perceber. E o pior: pensa até que deve haver por perto, muito perto, baratas parentes e amigas.

Depois, elas se fazem de frágeis. Assim, ratificam o primeiro argumento da turma do "deixa disso":
- Barata é um bicho inofensivo... Olha o tamanho dela e olha o teu?! Ela é que tem que ficar com medo...

Aí, quando tudo parece se resolver e a pessoa que tem medo decide parar de gritar, vem o xeque-mate mais cruel de todos: elas voam. É impressionante! Mas sempre que você está conseguindo convencer alguém de que a barata é inofensiva, ela percebe, dá um sorriso irônico e voa.

Depois disso, não há mais o que dizer e o melhor a fazer é pegar o chinelo e bater na malandrinha. Fecha parêntesis.


- Meu Deus!!! Ela é voadora!!!
- Não diga...
- Eu juro!
- Faz o seguinte: fica de olho nela enquanto eu penso em alguma coisa...
- Ai... por favor...

Campainha.

- Cadê a bara...
- Eu não acredito!
- Não acredite mesmo! Só eu para vira da Urca para cá matar uma barata!
- Não, seu bobão. Não acredito que ela tem medo da campainha. Olha só, voou lá pra fora...

Ah! Esse "Ai... por favor..."



escrito por RODRIGO LOPES @ 23:01 - PESSOAS COMENTARAM


Segunda-feira, Julho 14, 2003





Dulpo Engano


Olá!
Olá, tudo bem?
Ah! Você sabe..
É! Eu sei. Tua avó está bem?
Ótima! No outro dia mesmo perguntou por você.
E você?
Eu, nada. Mudei de assunto.
Você não perde essa mania...
E o trabalho?
Não disse?!
Responde, Bruno!
Bruno?
Bruno?!
Mas o meu nome é Sérgio.
Sérgio?
É. Sérgio.
Desculpa. Foi um engano.
Foi mesmo.
Pra falar a verdade eu nem tinha que ter ligado...
É verdade!
Sabe como é?! Às vezes a saudade aperta e a gente acaba fazendo uma loucura.
Sei como é, sim! No outro dia quase fiz isso...
Voltar seria um grande erro.
Seria. Acho que o ciclo acabou. Insistir seria um erro.
Que bom que você também pensa assim... Adeus, Bruno!
Sérgio. É Sérgio.
Adeus Sérgio!
Adeus, Carol... espera: qual o teu nome?
É Paula.
Adeus, Paula! Prazer, hein?!
Tchau!
Tchau!



escrito por RODRIGO LOPES @ 22:55 - PESSOAS COMENTARAM







Mulheres...


- Eu tô gorda!
- Que isso, Clara?! Tá maluca?
- Eu tô enorme de gorda, olha só essa calça?! Não entra de jeito nenhum...
- Mas você odeia essa calça...
- Isso não está em questão, Fernando. Odiando ou não ela deveria dar em mim!
- Pára de besteira, Clara. Você está ótima!
- Eu tô gorda! Você por acaso é cego?
- Hummm...
- Tira a mão de mim!
- É assim que os cegos enxergam, bonitinha!
- Que legal, um humorísta... Pior: um humorista que acha que sou só bonitinha...
- Bonitinha, eu te chamo de bonitinha desde antes...
- "Desde antes" do quê, Fernando?! Desde antes de eu ficar gorda?!
- Mas que besteira, Clara!
- Sei...
- Você é linda de qualquer jeito!
- Agora definitivamente você me chamou de gorda... Olha, Nando, você hein?!
- Não coloca palavras na minha boca! Olha lá...
- Então o que você disse?
- Disse que o que importa é o que você tem por dentro...
- Ah é? E você por um acaso tem visão raio-x agora, ô malandrão?
- Viu como você não está gorda?
- Ãhn?
- Todo gordo é simpático. Olhe pra mim, sou simpático! Você, não. Você tá chata pra cacete...
- Você que está!
- Que nada! Sou um ortodoxo.
- Não, você é lindo.
- Chata e cega!
- Hummm...
- Hummm...



escrito por RODRIGO LOPES @ 22:51 - PESSOAS COMENTARAM






Agulhas num palheiro


Não sei quanto a você, mas eu sempre acreditei naquela história de "feitos um para o outro".

Tudo bem que às vezes o destino não consegue ser tão eficiente e a coisa demora um pouco para acontecer. Ah! Mas quando tem que ser os caminhos se cruzam cedo ou tarde; e a paixão acontece.

Eu sei! Eu sei! Tá cada vez mais difícil acreditar nisso. Até porque são 6 bilhões de pessoas no mundo.

Pois é, isso não se pode negar. Mas veja bem, dessas 6 bilhões de pessoas, 2,5 bilhões são chineses ou indianos. Então a gente já corta para um pouco mais da metade.

E tem mais: desses 3,5 que sobram, 1 bilhão é islâmico. E outros 2,2 não falam português. Ou seja, restam 300 milhões de pessoas.

Quer dizer, restariam se não houvesse 167 milhões de casados. De bobeira, ja reduzimos o número inicial para 133 milhões de pessoas. E os homossexuais? 23% na última pesquisa! Caiu pra 102,41. Só 102,41 milhões!

Tá certo! Tá certo! Achar alguém no meio dessa multidão continua tão dificil quanto achar a famosa agulha no palheiro...

Mas também ainda temos que tirar os padres, as freiras e os seminaristas. Crianças, idosos, gente estranha, fãs de axé music e pagode (isso é importante!), duplas sertanejas de Goiás, árbitros de futebol, dirigentes, políticos e demais marginais. Então restam 26,5 milhões.

E os amantes? Ihhhh... Pode tirar aí a metade, afinal... bom, o fato é que agora só restam 13.000.000 de pessoas. E, extendendo nosso corte aos outros compromissados como namorados, noivos e demais enrolados, chegamos ao impressionante número de 3 milhões de palhas no palheiro.

Espera! Eu já ia me esquecendo dos engenheiros, decoradores, físicos nucleares e demais enrustidos, líderes sindicais e do pessoal do MST. Tira todo mundo!

Hummm... Gente que se leva a sério demais e gente chata?! Corta! Sobram apenas 15 pessoas.

Por fim, vamos tirar aquelas pessoas que colam um adesivo "Eu acredito em duendes!" no carro e, claro, os duendes. Restaram 2 pessoas! Apenas 2!

Eu e aquela moreninha linda ali da mesa 02. Nossa, que gracinha...



escrito por RODRIGO LOPES @ 22:42 - PESSOAS COMENTARAM






Nietzsche? Saúde!


Ela corre na Lagoa toda manhã.
Ele joga pôquer com os amigos toda quinta.

Ela adora queijo brie com geléia de damasco.
Ele ama goiabada com queijo.

Ela fala francês.
Ele fala na língua do P.

Ela está sempre bem vestida.
Ele acha que ela demora muito pra se arrumar.

Ela usa gel para banho.
Ele não lava atrás da orelha.

Ela estudou psicologia.
Ele odeia conselho.

Ela usa creme hidratante.
Ele acha que escorrega.

Ela joga gamão.
Ele era o rei do bafo.

Ela anda de salto alto.
Ele anda com o calcanhar pra fora do chinelo.

Ela gosta de teatro.
Ele gosta de falar que ator de teatro é tudo viado.

Ela ama o Kurosawa.
Ele imita o Robocop.

Ela estende a toalha depois do banho.
Ele faz pilha de roupa suja no quarto.

Ela acorda de mau humor.
Ele acorda alegre até demais.

Ela acha a mãe dele uma pessoa difícil.
Ele acha a mãe dela uma chata.

Ela lê Nietzsche.
Ele diz "Saúde!".

Ela gosta de serra porque é mais romântico.
Ele gosta de praia porque tem bunda.

Ela acha o Zéfiro um ícone da manifestação artística de uma época muito conturbada.
Ele só ligava pra sacanagem, mesmo.

Ela tem uma agenda.
Ele só chega atrasado.

Ela lembra de tudo.
Ele inventa.

Ela acha importante discutir o relacionamento.
Ele acha que ela complica muito as coisas.

Ela só terá filhos quando estiver estabilizada.
Ele quer ter pelo menos cinco filhos.

Ela diz que ele precisa crescer.
Ele diz "Eu sei, mas juro que isso nunca me aconteceu antes!"

Ela era a primeira da turma.
Ele sentava no fundo.

Ela espirra baixinho.
Ele espirra gritando.

Ela pára pra se ajeitar toda vez que vê um espelho.
Ele sai pra rua com a camisa do avesso.

Ela adora salmão com molho de manga.
Ele não pode ver um enroladinho de salsicha.

Ela gosta muito de champagne.
Ele só toma Bohemia.

Ela gosta de experimentar coisas novas.
Ele só toma Boehmia.

Ela conhece a Europa.
Ele quer conhecer a Disney.

Ela pulou o C.A.
Ele repetiu a primeira série.

Ela come escargot.
Ele diz "Pô, Amor! Aqui na mesa?!"

Ela acha os amigos dele imaturos.
Ele acha as amigas dela umas chatas.

Ela disse sim.
Ele também.

E viveram felizes para sempre.



escrito por RODRIGO LOPES @ 22:40 - PESSOAS COMENTARAM


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